Inextricável

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                Acuado pela ressaca, uma bexiga plena e um sonho no qual se debatia e gritava ao cozinheiro que o besuntava de molho inglês e mostarda canadense que se recusaria a entrar no forno se não expulsassem do restaurante o homem de gravata vermelha, estranha em meio aos tropeços e apalpadelas da escuridão a ausência de Suzana, duas garrafas de vinho branco não sendo causas suficientes para discussões que fossem seguidas de fugas na madrugada ou sua amnésia do fato, de modo que na volta do esguicho interminável e da água com limão espremido abre a porta e a encontra deitada seminua no chão do quarto ao lado, amparada da bagunça por um saco de dormir e o radinho chinês sussurrando música clássica, prefere não a incomodar e só tem oportunidade de entender dali a duas horas, nas primeiras claridades do domingo já abafado, quando o barulho de arrumações sorrateiras lhe denuncia o inexplicado anseio por rua e metrô, atividade ornamentada por olhos evasivos e incapazes de disfarçar lágrimas recentes. Depois de algum arranjo de palavras meigas com recusas rancorosas, em meio a abraços ele entende que havia sido punido por ter caído no sono em meio a confidências e assuntos delicados, a indignação, a revolta e o álcool, ela confessa já no tom de brincadeira, se traduzindo em uma momentânea mas palpável vontade de segurar até o fim o travesseiro com força sobre a cabeça daquele boneco estirado que exalava dificuldades de respiração e uvas fermentadas, informação que deflagra muitos risos, brigas de travesseiros e simulações eróticas de sufocamento na hora da conciliação aeróbica definitiva, bons termos internos e externos que os acompanhariam até bem depois da despedida carinhosa na catraca da segunda-feira, ela linha verde, ele azul.

 

                Naquele mesmo dia, retorno do almoço com colegas, fartas informações sobre futebol, cotações de preços de carros e programas televisivos praticados no fim de semana, olha seu rosto suado no espelho, com a boca a espumar e deformar-se com os movimentos invasivos da nova escova Y, agora com cerdas multicoloridas, e se imagina se debatendo desesperado sob um travesseiro inclemente, e como estivera por um momento vulnerável a um desejo assassino inesperado, pulsão que não fazia de modo algum parte do repertório psicológico de Suzana, era como se algo externo a tivesse dominado naquele momento delicado, uma força poderosíssima capaz de anular todos os meses de simbiose terna e selvagem, um pavor súbito inunda-lhe de suspeitas sobre eventos passados, um acidente de moto, uma pancadaria numa praia, um assalto na porta de restaurante, tudo fazia sentido, sempre tinha sentido essa presença sinistra, uma aura manipulante que parecia brincar com sua debilidade animal, sempre pronta a fechar-lhe a porta da morte nas costas, e sua própria namorada poderia servir de agente a essa Força (o Horla, pensou, em homenagem a Maupassant) , todos poderiam, sentia-se como o único imune à possibilidade de manipulação covarde, e isso gelou-lhe a espinha, se a Força ou Horla podia controlar a mente certamente também poderia lê-la, e daqui em diante Ela sabia que ele sabia. O resto da tarde foi inútil, até a dona Cleide da copa achou por bem questionar sobre sua saúde e da família e insistir em que tomasse um chazinho de estragão com camomila, surgidos não entendeu bem de onde, infusão cuja vista e cheiro o encheram de pavor, a coisa começava mais cedo do que imaginara. Conseguiu impor ao chefe sua necessidade urgente de ir embora mais cedo, não sem deixá-lo quase tão indignado quanto dona Cleide, usou uma moeda para sortear as bifurcações e transportes que ia tomando, o último um taxi que ganhou sua simpatia pelo motorista sonolento a esperar sua vez no ponto.

 

                À inevitável troca da primeira noite de sono por horas de planejamentos estratégicos, deveu-se uma série de procedimentos já postos em prática no dia seguinte, como o gradual afastamento de Suzana e a montagem de uma complicada armadilha noturna composta de barbantes, sinos e latas vazias, ninguém entrava mais em sua casa, enquanto a observação e a desconfiança que ele já admitia paranoicas proporcionaram-lhe nova descoberta: o Horla possuía seguidores conscientes! Umas pessoas suspeitas nas ruas, que não disfarçavam a hostilidade, com esses tinha de tomar mais cuidado, não precisariam estar sob efeito de uma vulnerabilidade psicológica pontual para jogar-lhe o carro por cima, atirar-lhe uma pedra na cabeça, injetar-lhe qualquer substância obscura no pescoço, constatação de molde a fazê-lo se isolar de maneira ainda mais definitiva, sabia bem que não estaria longe o dia em que sucessivas faltas, desatenções e obsessões o lançariam nas estatísticas de desemprego, mas por agora um problema mais interessante se impunha: como fazer para identificar e se aproximar de outros imunes?  Se existissem, deveriam caracterizar-se pelo racionalismo monolítico, pouca propensão a impulsividades e sentimentalismos, coisas como frieza e austeridade. Um pouco por solidão e outro em prol da organização de uma resistência sem esperanças se impõe achar uma solução, embora parecesse impossível identificar e evitar prosélitos farsantes do Horla, nada lhe ocorria que parecesse minimante confiável, frases e mensagens cifradas em redes sociais, anúncios de duplo sentido, escândalos calculados a atrair a imprensa, acaba por eleger um meio arcaico e trabalhoso, a investigação pessoal de indivíduos cujos grupos e ambientes fossem mais prováveis a camuflar inimigos do Horla.

 

                Talvez sob o efeito de ansiedades desesperadas ou de esperanças acumuladas três semanas bastam para fazê-lo se entusiasmar por uma professora de cálculo numa universidade particular que seus sorteios o fazem passar em frente de vez em quando, a fisionomia rígida e o desprezo acintoso por contato humano tinha-o atraído, seu cargo lhe facilitou as investigações e a espionagem, tudo parecia favorável, morava só num sobrado de uma ruazinha estreita na vila Madalena, tinha um namorado ou amante que aparecia por lá em dias preestabelecidos mas nunca dormia, horários regrados, um gato que sempre ficava olhando fixamente a rua pela janela (poderiam também se esfregar por aí a serviço do Horla?), uma vez procurou abordá-la na rua mas só conseguiu um olhar de desprezo, talvez o disfarce de carteiro, talvez seu próprio olhar inquiridor lhe fizesse parecido a um dos detestáveis sectários, não achou nada absurdo quando lhe surgiu a ideia de entrar sorrateiramente em sua casa e lá forçar o contato mutuamente salvador, a internet aí estava para facilitar-lhe questões menores como arrombamentos discretos e sedativos, se necessário.

 

                Aquela madrugada foi escolhida em função da lua nova, da pouca movimentação nos arredores e da impossibilidade de se aguentar mais tempo a tensão das expectativas, decidiu que o melhor seria ganhar o interior logo pela janela do quarto, ao invés de enfrentar portas, corredores escuros e tigelas de gatos, a dificuldade de escalada era o previsto, o mecanismo de destravamento o conhecido por binóculos e visitas a lojas especializadas, uma pequena fresta lhe adianta a visão do corpo seminu, a penumbra e a seminudez a deixava ainda mais encantadora do que as roupas sóbrias de professora,  conseguiu ser silencioso o suficiente para abrir as folhas da janela e entrar, seringa de dormonid preparada, sua ideia era sedá-la e então aplicar-lhe mordaças e amarras e só depois explicar-lhe tudo com calma, e se fosse mesmo o caso oferecer-lhe aliança e apoio contra o todo poderoso Horla. Um estalo na madeira do piso a acorda, o grito inevitável e o movimento brusco lança a seringa para baixo da cama, há um início de luta, o berro interminável o faz agir sem pensar, aperta o travesseiro com força sobre a cabeça dela. Silêncio. O gato vem esfregar-se ternamente em suas pernas, na frente da porta um labirinto de barbantes, latas vazias e sino.

 

               

               

 

                

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Ótimo

A porta de aço subiu. “Bom dia, vamos acordar?”. Estava escuro, eu tinha quase conseguido esquecer. Um fio de ar frio escorrendo pelas frestas do cobertor. O funcionário vinha de Guaianazes, salvo engano, e se instalou com um bocejo atrás do balcão do caixa, bem ao lado da minha cama. Qualquer resistência, inútil. Esfreguei, arregalei os olhos, arranquei o calor que me protegia. Fiz menção de me espreguiçar, fui advertido: o café. Logo clientes. Ou fornecedores, ou algo que mal escuto porque é sempre, e pus a água no fogo e, claro, chegou o primeiro: “você lavou direito a panela? sabia que é melhor separar uma apenas para ferver água, pra não ficar gosto nem cheiro?” Desliguei o fogão, apanhei uma das que vieram no último pedido. Muito compreensivo, ou meio tonto de sono, não fez estardalhaço ao me lembrar que as panelas antiaderentes deveriam ser untadas com manteiga e aquecidas por cinco minutos antes do primeiro uso, para uma maior durabilidade. Já não era a primeira vez que eu tentava me fazer de besta, torcendo por uma desatenção da freguesia. Eu terminava de passar a água quando o próximo veio: “estudos comprovam que pessoas que não tomam o café da manhã ou somente tomam um café preto ao acordarem têm 10% mais chances de ganho de peso, pois o organismo fica com deficiência de nutrientes. O ideal é fazer a primeira refeição assim que acordar, nem que seja com um suco de fruta ou de soja, mas algo que reabasteça o organismo”.

Certo. O de soja eu tinha sido obrigado a abandonar depois da Unilever: restava um suco de laranja de dois dias atrás. Orgânico, certificado. Tinha acabado de tirar da geladeira quando distingui o terceiro cliente esbravejando sobre o balcão, que absurdo eu não respeitar um prazo de validade após aberto. Corri pra pia, despejei tudo abaixo. Por instinto, enxaguei e desdobrei o tetra-pack antes de jogar no cesto dos recicláveis, cuidado que me valeu o silêncio talvez satisfeito do próximo na fila, o das preocupações com o planeta. Contente comigo mesmo, cheguei a crer que poderia me sentar na poltrona por um instante, quem sabe tomar um gole do café, por frio que estivesse.

“Já viu seus emails?”.

Eu teria reconhecido aquele trinado estridente mesmo enterrado de cabeça pra baixo em um manguezal mongol. “Respondeu aquela mensagem no Facebook? E a previsão do tempo? Já viu a sátira que fizeram em cima do funk das perseguidas? Comentou o vídeo edificante que o avô do seu cunhado postou no seu mural?”. Procurei o notebook, estava exatamente ao lado da poltrona, ainda com o fio ligado. Atendi seus pedidos a toque de caixa, com toda a eficiência que a ausência de café me permitia. Só percebi que não teria dado conta de qualquer forma quando um ronco no meio do meu corpo mostrou que metade do dia já era. “China in Box Online”, disse ele, condescendente; corri com os dedos. Pelas horas seguintes outros clientes se revezavam na fila, alguns até pacientes, outros não, ameaçando derrubar o yakissoba das mãos do entregador com chapéu de chinês, exigindo pedidos mais baratos como saúde dentária e ligações para meu avô senil, reclamando da lâmpada queimada no hall da entrada e do excesso de teias de aranha na maçaneta. Com o canto do olho tive a impressão de perceber um pequeno mercado negro dos que estavam prestes a desistir, vendendo seus pontos aos que acabavam de chegar. Mas aquele pagava sempre à vista, e a ordem do dia era fechar no quanto fosse possível, aproveitar a moda inteira; e se os outros queriam tanto ser atendidos, porque não chegavam antes do café?

Meia-noite, 9gag, atualizações de software, comparações de preços e qualidades de smartphones, vídeos sobre as baleias Fin e Azul, retrucada a um comentário higienista numa matéria da Folha, a música da banda Ulan Bator, baixar um filme porque uma menina tinha membranas entre os dedos e havia um processo, e eu talvez tenha tido a pachorra de largar o notebook ao lado da poltrona e me arrastar para a cama, ignorando os novos pedidos de nosso melhor cliente. E talvez um cobertor, e uma voz absurda me desejando “bom descanso”, e talvez uma malha de aço descendo sobre a rua em direção a Capão Redondo.

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Um purista

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“Sou macho pra caralho”, dizia, desde os nove. Tinha sido o primeiro do prédio a descobrir a punheta, traficar revistas pornográficas, bolinar a filha do síndico. Entre pogobol, patins e futebol, fazia críticas minuciosas sobre tetas, coxas e bundas. Sua palavra foi ganhando peso: garotinhas de menos de doze com ancas inferiores ficavam às moscas nas sinucas clandestinas do salão de festas, primeiras pequenas baladas garantidas por seu pai orgulhoso, condômino evangélico, locador e praticante de três outros apartamentos. Mas não as desprezava nas escadarias, como certa vez pôde comprovar, aos berros, a senhora do 71, num evento que lhe rendeu dois dias sem playstation e, ao pai, uma multa simbólica por violação do sossego.

Passava o tempo e ele seguia pelo caminho reto na apreciação estética e anatômica do animal mulher, com suporte paterno irrestrito, um quarto que começava a querer render processos cíveis pela barulheira e uma mãe que mal se via de tão crente.

Aos treze começou a sofisticar sua apreciação. A loirinha do 42 passou a frequentar menos o playground porque suas sardas não eram mais ignoráveis. A negrinha do 85 passava ligeira no hall social porque ele não tolerava peitos tão grandes. A moreninha do 64 olhava pra baixo no elevador porque sabia que tinha olheiras. Estava se sentindo tão grande que, em sua festa de quinze anos, pensou em retribuir uma bondade: falar de bondage àqueles tios de trinta e poucos que não eram totalmente evangélicos. Afinal, tinham lhe explicado o clitóris antes dos sete, o que lhe poupou algum trabalho mais tarde: parecia justo. Mas em meio à exposição percebeu que os sábios agora eram porcos, e então atirar pérolas seria perda de tempo mútua. Trocaram de assunto todos ao mesmo tempo, as divisões nos times sempre importavam muito.

Aos dezesseis começou a se sentir impedido. Primeiro por uma menina que poderia ser Gisele Bündchen, mas com um único e pequeno pelo fujão que orbitava o mamilo esquerdo. Nada que já não tivesse visto em outras – mas naquele idílio, naquela estátua, naquele momento? Teve o impulso de pagar o táxi dela, pra isso servia a mesada. Manhã depois, a camisinha vazia e triste sobre o chinelo o encarava. Achou legal revisitar cartilhas antigas de pureza. Num livro de biologia, área de conhecimento que de fato respeitava, descobriu um capítulo com as diferenças mais notáveis entre X e Y, com informações que não apareciam nos portais de celebridades e nos sites pornôs.

Viu que era um ignorante. Como tinha deixado passar assim o queixo quadrado da Olívia? Estaria cego, beijando a mão grande da Janaína? Não conseguia se perdoar por ter ficado ano passado, bêbado, com aquela de sobrancelhas tipo Malu Mader. Mas o grande tormento era a menina de voz grossa da semana passada.

Que ligou em seguida. Ele respondeu desafinado. Ela achou engraçado – até entender.

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Amortecedores

Balde Ref.47
Na atmosfera, hoje, havia uma espécie de mau-olhado. Em suspensão, visível como a poeira iluminada por uma fresta na janela. Quarta-feira.

Era algo surdo, perigoso, pegajoso. Fim de dezembro.

Fim de tarde. Um besouro muito preto e alongado batia no lustre e caía de costas no capô do carro, ao lado da chave de boca. Eu o afastava com um peteleco.

Eu tinha acabado de trocar os amortecedores do Uno do Zé, que tinha deixado o carro pela manhã. Ele entrou correndo, suando frio, tropeçando na mangueira do compressor e na chave de roda, atirando a pasta de vendedor num canto cheio de graxa, implorando o banheiro, jurando de morte a feijoada do Pedroso, decidido a virar vegano assim que aliviasse os intestinos. Corri na frente, abri a porta e a passagem, pra não ser atropelado. Diante dela, naquela ofegada pré-alívio, teve uma hesitação inacreditável. De verde que estava passou a pálido. Deu meio passo pra trás, tampou a boca com as duas mãos, mas o vômito acabou espirrando na pressão, por entre os dedos, em várias direções, inclusive a minha. No esforço inútil de conter o estômago, descuidou do resto, que explodiu calças abaixo. O espantoso era que, mesmo sem o controle dos esfíncteres, o Zé prosseguia se afastando da porta aberta, deixando um triste rastro no chão já tão sujo de óleo e fuligem.

Sem saber o que fazer, espiei dentro do banheiro: nada de mais. Apoiado na parede oposta, segurando as calças, ele perguntou se eu não estava sentindo. Ah, claro. Óbvio. “Eu não tenho olfato”, respondi, e pensei imediatamente no Fudêncio, que andava sumido há mais tempo que o de costume. Chateado, fechei a porta. Deixei o Zé na área dos fundos, diante de sabão, torneira e uma bermuda velha. No banheiro, comecei a fuçar as prateleiras. Na de cima, dentro da caixa de papelão onde guardava os panos de chão limpos, encontrei o bichano. E uma multidão de bigatos, pequenas moscas, besouros pretos meio alongados. Faziam um zumbido indistinto que eu já tinha percebido antes. Achava que era de uma lâmpada fluorescente, que vinha ameaçavando queimar.

Fechei.

De bermuda, a uma distância segura, o Zé me observava. “Era o Fudêncio”, expliquei, mas sua expressão não amenizou. “É sério, não sinto cheiro de nada”. Ele resmungou um assentimento, me agradeceu pela bermuda e tirou o talão da pasta, os olhos presos no chão. Deixou o cheque sobre minha mesa, junto com uma nota de cinquenta, acenou com um positivo constrangido, deu a partida.

Eu ouvia os segundos do relógio na parede. Faltavam cinco pras seis. Peguei rodo, balde e um pano sujo.

Uma lâmpada fluorescente piscou duas, cinco vezes, e queimou.

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Romantismo

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Fazia duas horas desde que o astro em torno do qual giravam os planetas de seu sistema solar tinha desaparecido no horizonte, tinha um ser humano sentado na cadeira a sua frente, que dizia ter 25 anos, ter características psíquicas determinadas pelo alinhamento orbital de saturno e de estrelas longínquas aparentemente agrupadas, que deste ângulo da galáxia pareciam, de maneira a forçar a imaginação, formar o desenho de uma figura mitológica da Grécia antiga, tudo isso no dia em que foi expelido do ventre de sua mãe; apoiar entusiasta e incondicionalmente a instituição de esporte, o que girava em torno do direcionamento cooperativo de esfera de ar envolto por pele curtida costurada de outros animais por dois grupos rivais, que se representava pela cor verde; gostar de comida preparada ao estilo cultural dos povos que escreviam por ideogramas; entender que estruturalmente as coisas pareciam ir bem da maneira como estavam organizadas, com algumas ressalvas pontuais e aparentemente sem perceber implicações na divisão dos recursos, em estruturações de poder e onipresença de ilusionismos coletivos; almejar que dentre algumas voltas mais do planeta ao redor da estrela ela mesma esteja apta a expelir um descendente com sua própria metade de carga genética replicada, de preferência retirado artificialmente sob os auspícios dos determinismos benfazejos de algum conjunto visual de estrelas categorizados com o elemento alquímico água, para tanto sendo imprescindível um outro ser humano comprometido com o investimento de recursos emocionais, materiais e tempo; gostava de se deslocar e se alojar no maior conforto possível em lugares em diferentes graus de afastamento de seu núcleo populacional, adquirir seus produtos marcados por traços por assim dizer exóticos, dado o contraste de usos e costumes na distância e no trato com o meio diferenciado; costumava ingerir, como agora, beberagens resultantes de fermentações de alimentos nas quais se sobressaiam o álcool como produto final, de preferência as que partiam da uva e de produção mais elaborada, talvez como resultado da manifestação do valor de diferenciador social daquela bebida, quase inevitável num meio marcado pelo desequilíbrio na posse e no aproveitamento dos recursos; gostava de ver sequências de imagens dinâmicas que acabavam por se fechar numa historia na qual dois seres humanos que tinham muito em comum e se desejavam enfrentavam percalços e dificuldades as mais estapafúrdias e finalmente os venciam e juntavam seus egoísmos; tinha como fato inconteste, e se entusiasmava com a ideia, de que um tal de deus havia criado tudo o que existe e todas as formas de vida a partir de coisa nenhuma, como cenário para os atores principais, os seres iguais a ela que eram amados e acompanhados de perto individualmente pelo demiurgo a fiscalizar o cumprimento de sua série de regras impraticáveis; acompanhava quase todos os dias em suas horas de liberdade, quando não estava a vender seu tempo em troca de recursos de necessidades reais ou imaginárias, o que era difundido na tela eletrônica colorida que quase todos tinham em casa; contava como os outros seres humanos que vendiam seu tempo no mesmo local que ela não se dedicavam o suficiente ou não mergulhavam completamente na atividade ou não eram confiáveis, informações obtidas à custa de destilação de longas histórias, as quais flutuaram pela mesa e pelas garrafas por mais de duas voltas do ponteiro longo do aparelho que fazia o paralelo entre o girar do planeta e ângulos do mostrador. Finalmente achou um momento propicio e pediu licença àquele ser curioso a pretexto de aliviar algumas necessidades biológicas no recinto apropriado, deixou discretamente o montante devido de créditos-recursos, relativos ao consumo das beberagens e ao tempo do homem que os tinha servido, em forma de transferência eletrônica remota e saiu ganhando a calçada, uma chuva fina deu-lhe as boas vindas, não impedindo que se pudesse admirar perto do cimo dos prédios a oeste, escapando das nuvens que tomavam quase todo o céu, a linda lua que exalava seus perfumes pela cidade, a mesma que vinha entretendo os sonhos dos homens há milhares de anos…

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Pulôveres

Tentei arrancar a verdade pela raiz. Quebrou no talo.

Retirei com cuidado a raiz da terra, pus num molho de nutrientes: leite com pêra, ovomaltino, água de coco e vodka. Não vingou.

Passei alguns dias a pão, água e ourivesaria. Pensei em monastério, pra combinar. Mas acabei tendo a vontade de comer tapioca. E não havia na geladeira.

Desescalei os degraus da torre pensando no que poderia ter que enfrentar até o mercado: buracos na calçada, executivos pedindo trocados, baratas aleijadas, pedaços de plástico, guimbas de cigarro afogadas em água pluvial, mosquitos preguiçosos dormindo à vista de todos, espetos de frango abandonados pela metade, dissertações sem nome do autor, frutos estranhos pendurados em salgueiros, bolinhas de papel higiênico atiradas dos prédios por gente indignada, crossdressers lutando kick-boxing com viciados em crack, pugs ainda mais estrábicos lambendo o dedão do pé de monjas pétreas num zazen ao meio fio, um mendigo filmando tudo.

Só fui encontrado por uma menina pequena, que me estendeu um graveto.

Eu peguei.

Ela disse que não. Tive que verificar se estava nu, antes de responder (ao quê?) – ela dizia que não, eu tinha o graveto – questão de atirar pra eu mesmo pegar, e seria muito bonito assim?

“Assim, não”, disse, antes que eu abrisse a boca.

Pensei em deixá-la tal como estava antes. Devolver, pedir desculpas – não é assim que se faz? Devolver, e a menina pequena na rua não estaria menor do que quando me enxergou.

Ainda considerava a tapioca enquanto minhas mãos quebravam o graveto ao meio. Depois fui eu quem quebrou as metades em quatro; depois fui eu, quebrando em oito. Depois foi ela, pegando o farelo de madeira comigo pela calçada. Ao fundo, um tabagista gritava “Hadouken!” enquanto atirava seu poodle toy contra a janela de um Hummer blindado. E um mendigo filmava tudo.

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Nada de novo debaixo do sol

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O cheiro era de velas, flores e piadas fajutas, as primeiras a notar o movimento foram umas poucas moscas que vinham insistindo em pousar no velho Mascarenhas ainda com o desestimulo de um véu estranhamente encardido para seu uso único e exclusivo, depois a felicidade dos que choravam com alguma sinceridade somou-se à contrariedade estupefata dos herdeiros da grata surpresa da noite anterior, às crianças tanto fazia, não tinham entendido muito bem antes e agora apenas seguia-se outra sequencia aleatória de eventos do mundo dos adultos, exceção feita à Carminha, que se pôs a berrar, fugir para longe do avô que tentava se levantar, e potencializar os berros ainda mais ao se precipitar nuns arbustos ressecados e cortar a perna na proteção metálica do gramado, o velho Mascarenhas, depois de ser solicitamente ajudado a sair do caixão e se livrar do terço, das flores murchas e dos chumaços de algodão, recebia os apertos de mão e os tapinhas encorajadores nas costas e se divertia lendo os dizeres e as origens nas coroas enfileiradas ao redor, tia Selma, reconhecendo que o caráter único da situação não eliminava a possibilidade dos resfriados ou das pneumonias tinha saído às pressas a arranjar-lhe algum outro conjunto de roupas que não estivesse aberto de fora a fora na parte de trás, aproveitou para telefonar e dar as boas novas ao filho que estava a caminho do enterro vindo do interior, na verdade parado no trevo da saída do posto de serviços onde parara para o expresso com pão com manteiga na chapa, o outro viera na ânsia de chegar na marginal antes do inferno estático e enchera-lhe a porta direita e parte do para-lamas, esperavam a viatura da policia  e os guinchos das seguradoras, o que não respeitara a preferencial se prontificou a pagar todos os danos e conversavam animadamente sobre aeromodelismo e sites de prostitutas de luxo, os policiais se faziam esperar uma vez que a prioridade era o assalto a banco na rua Mariguela, a central reportara textualmente duas motos com quatro jovens vestidos de Ronald MacDonalds que tinham levado da agência do Banco Sinistro dois malotes com 800 mil reais cada um e os espalhavam pelas ruas das favelas por onde passavam, na agencia tinham sido deixadas  três pistolas de brinquedo e a simpatia dos clientes que puderam tirar fotos com seus aparelhos celulares ao lado dos bandidos, ao agente de segurança que fizera menção de reagir foi-lhe explicado pelo MacDonald mais baixinho que o alvo era só o dinheiro da instituição usurária  e que não valia a pena mover-se por aquela porcaria, que além do mais ia ser atirada às mãos cheias aos ventos das ruas de terra, noticia que dali a duas horas seria veiculada pelas rádios e televisões num tom neutro e contextualizado, uma pena a dona Matilde não estar agora a ouvir sua radio preferida de noticias, teria entendido melhor o que o filho tentara explicar às pressas enquanto tirava a fantasia e a maquiagem, lavava a louça e corria para não chegar atrasado na faculdade de direito, sempre ficava em duvida se era melhor descer no metrô São Bento ou na Sé, mas hoje valia a pena ficar a estação a mais, ao lado do casal afoito que se beijava, uma senhorinha de uns sessenta anos e uma punk negra, um garoto de rua saca o Iphone e inunda com volume máximo o vagão com o hit do momento:  Prozession, do Stockhausen.

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