Síndrome

Cheguei atrasado à escola para fazer a recuperação em Ciências Cidadãs, pois houve demora na entrega de meu troféu de primeiro lugar no torneio regional de xadrez. Ganhei o torneio mas bombei de ano, de novo. Só me restava voltar para casa e estava sem dinheiro. Negociei com o motorista do táxi a metade da corrida até minha casa pelo troféu, que poderia então mostrar aos seus amigos do ponto de táxi e do bilhar que seu filho era tão bom em Ciências Cidadãs quanto em xadrez. Porém, o desgraçado me deixou numa esquina onde a faixa de pedestres era em número ímpar. Pois será que ele não sabe que ao pisar numa das listras brancas com um pé o outro vai pisar em menos faixas? Não podia tolerar aquela desigualdade de pisadas em cada pé e tive que sair pela mesma calçada até outra esquina onde houvesse uma faixa de pedestres com número par de listras brancas. Já estava dando a terceira volta pelo quarteirão, sem sucesso em encontrar uma faixa de pedestre com número par de listras brancas, quando a fome apertou e entrei num bar para comer um cachorro-quente. Como não tinha dinheiro, e o garçom me entregou o cachorro-quente numa mão sem estender imediatamente a outra, aguardando as moedas que sacramentariam a justa troca, achei que havia me dado o cachorro-quente de bom grado, mas fazer o que, bombei em Ciências Cidadãs, não foi suficiente para que o dono do bar perdoasse minha inépcia nas artes das transações comerciais, e tive que lavar pratos até cobrir o valor do cachorro-quente consumido. Porém, ao observar minha destreza em lavar pratos, onde não apenas prestava pela rapidez como também pelo asseio e capricho em todo aparelho de louças, tornando-os praticamente imaculados como a Virgem Maria, o dono do bar me contratou à sua cozinha e dispensou o antigo lavador de pratos, que o máximo que conseguia fazer era espantar moscas e retirar de má vontade alguma crosta de gordura que se impregnava numa panela. Ganhando o mesmo mísero salário que ele, meu novo chefe concordou em adiantar minha corrida até minha casa com a condição que fizesse hora-extra amanhã para compensar o prejuízo, situação que achei justíssima, uma vez que a contabilidade de seu estabelecimento ia de mal a pior, dado o balanço do mês que pude xeretar de relance em seu caderno enquanto ele assoava o nariz. Sugeri que cortasse a propina inserida na terceira linha de suas anotações que tinha que dar ao fiscal da prefeitura, condição sob a qual obtinha permissão em deixar aberto seu estabelecimento. Esta proposta levou à minha instantânea demissão, mas também a uma generosa indenização, já que o fiz perceber, após um discurso incessante, que o valor da propina paga estava acima do preço de mercado das propinas cobradas naquele bairro, dando valores que oscilam conforme o humor do fiscal nas estações do ano e quando se comemoram os finados e o carnaval. Com um valor que dava para comprar cinco troféus de torneios regionais de xadrez, consegui outro táxi que poderia me deixar finalmente em casa. Porém, ao entrar no táxi, eu já não era mais eu, mas o outro eu, aquele que tinha um seminário para apresentar daqui a vinte minutos e pedi para que o taxista me levasse ao auditório da Universidade. Lá chegando fizeram minhas apresentações curriculares e comecei minha explanação em torno de minha tese principal: de que nos afastamos da natureza a partir do momento que priorizamos o olho em detrimento do nariz, e que toda filosofia provém desse axioma. Trinta minutos depois da palestra e dos efusivos aplausos vieram as perguntas, às quais respondia com citações gregas, latinas, chinesas e até portuguesas, mas enfim percebi que as perguntas não vinham de nenhum membro da plateia, cujos membros se entreolhavam não por causa da complexidade de meu discurso, nem pelo espanto da verdade que emanava de minha boca, mas devido ao estranhamento da situação que eu não respondia a um interlocutor visível, mas àquela voz que insistia em refutar tudo o que até então eu sustentava, demonstrando que nem era o olho ou o nariz, e sim o ouvido que me arrancava tanto da cultura quanto da natureza. Não bastou que eu treplicasse com a citação de um pensador marroquino, a voz continuava a ruir meu sistema de pensamento até que, por educação, a plateia interrompeu aquela voz impertinente com aplausos constrangidos, e depois furiosos, para calar o que ainda estava sussurrando dentro de minha cabeça, mas agradeci a todos pela presença e saí do púlpito (afinal, eu não era mais aquele eu que bombou em Ciências Cidadãs e sabia sair educadamente). Todos já voltavam às suas casas e ainda sobrava em meus bolsos dinheiro referente a três troféus e meio de torneio de xadrez regional, quantia suficiente para me levar a um sex shop e voltar a pé para casa. Lá comprei uma máscara de látex com mordaça, com que pude atravessar a noite abafando meus gritos por achar que iria morrer ou perder a consulta marcada. Já no dia seguinte, não me importava mais, a morte e a vida se misturavam numa massa indistinta de inércia e pulsação, e passei a manhã estirado na cama ouvindo o ranger de meus órgãos internos. Enfim o telefone tocou e finalmente confirmei a consulta com o podólogo que esperava há meses.

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