Acontecer

A velha abre a porta da casa e mergulha na luz da manhã. Senta na varanda, pousa a peneira sobre o colo e se cobre com a sombra da moringa. Traz um fardo de feijões e espalha um punhado na peneira. Chocalha os grãos em resposta ao cumprimento dos piados que ouve logo cedo. Recolhe num canto da arupemba os feijões e passa a contar um a um para o outro canto. Chega um senhor que se aproxima vagarosamente pela calçada e acena à velha com a mão livre enquanto a outra prende com força um grande envelope que amassa junto ao corpo.

– Bom dia, minha senhora, levo estes exames que recuso abrir desde quando desidrogenase lática passou a comparecer no meu vocabulário. Daí então cobre com seu volume crescente os prontuários e toma lugar das outras palavras que costumava dizer, como “sereno”, quando o sol se esconde e esfria a rua. E eu que nunca fumei, que deixei de comer pão branco, que substituí o ritual do pastel de carne da feira pela missa aos domingos, que faço minhas caminhadas, mesmo assim meus órgãos se amotinam. Equilibro hemoglobinas num intervalo entre números, mas a dor perfura. O dia é pautado conforme o horário de dezenas de remédios e a boca seca não liberta a voz quando recebo o telefonema de um neto. Já não cabe o sal em seus feijões, minha senhora, o sabor esmorece a favor da insipidez do alimento necessário. Rejuvenesço na memória rostos que alguns não estão mais aqui, releio imprecações, reescrevo declarações; me calo quando meu corpo grita tudo o que fiz e o que fizeram de mim.  Conte seus feijões mais devagar, minha senhora, para que eu possa um dia voltar ao norte onde nasci ou ir para o fim do sul e ver a neve de perto.

O senhor se despediu da velha que continuava a separar os feijões. Em seguida vem a garota depressa batendo chinelo pela calçada.

– Bom dia, florzinha, hoje mal posso respirar. Ele me ligou e disse que vai chegar. Somente daqui a quatro dias, eu sei, mas atravesso as semanas, os meses e os anos com ele. As canções que me acompanham e ecoam na sua fala melodiam a promessa de um beijo que se renova nas seguidas bodas que o tempo irá enobrecer. Já me deleito com os frutos de uma semente que ainda está por germinar e uma alegria dissipa qualquer receio de que voltarei ao exílio, à solidão no deserto da multidão mas sem o olhar daquele que me espelha. Em breve terei com quem ser para além de mim, enlace de vidas cujo trançado nos une. Estendo-me em outro corpo, colisão de astros que gravitam entre si. Terei a mão que irá segurar a minha e nos levaremos aos mais diversos cenários onde seremos protagonistas um do outro. Já sinto o cheiro de seus feijões e de mil temperos que explodem em minha boca. Conte depressa seus feijões, minha flor, para que ele venha logo e possa encontrar minha história na dele e continuarmos numa só.

A garota se despede da velha que deixa seu lugar para a criança que estava logo atrás. A velha sorri e continua a mexer com a mão os feijões na peneira. A criança se aproxima no parapeito da varanda e é convidada a entrar.

– O que você está fazendo? Ouço você repetir a pergunta para si quando já esqueceu o porquê das coisas que faz. Mas para mim é todo um encanto escondido nessa aparente simplicidade de separar feijões, que peço para você traduzir. Faço como você faz e imito seus feijões em pedras que conto na peneira de giz riscado no chão. Entretenho em ouvir quando faz de sua peneira um xequerê plano e põe seus feijões a cantar. Observo a maestria com que esses grãos são separados por entre seus dedos nodosos e esse é o espetáculo que me encanta. Vivo sob esse eterno tirocínio que me faz abrir a tudo o que você cria ou destrói, como você varre, fabrica, corta e costura o tempo. Procuro entender o que te faz ora rir e ora chorar quando olha a este amontoado de papéis rabiscados; o espanto quando me revela que deixa de ser velha ao me mostrar uma fotografia amarelecida de uma menina. Tudo é mágica. Não pare de contar seus feijões. Transponho nos meus brinquedos sua cozinha, suas máquinas, suas engenharias. Reconstituo nas faces enrijecidas de bonecos tanto eu quanto você e todos que nos cercam, que uma vez se querem e outra se repelem como costumamos fazer. Enceno suas festas e suas guerras. Derramo seus feijões com imperícia, queimarei um dia o meu guisado. Mas não pare de contar.

Logo em seguida outras crianças da rua chamam aquela que estava com a velha, que parte sem se despedir deixando pedrinhas no chão. A velha descarta no pé da moringa os feijões que não servem e volta para dentro de casa.

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