Bizarre Porre Triangle

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Devia ter escolhido o prato antes de Sônia começar a falar, agora mal conseguia distinguir a língua portuguesa em meio àquelas ininteligíveis possibilidades de indigestão, a garganta travada até para o vinho branco, um Chardonnay espetacular que se convertia instantaneamente em descarte de banheira ou lubrificante a base de petróleo, cuja lata segurava e olhava de maneira desesperadamente relaxada e casual, tentando associar a realidade do óleo Chardonnay a alguma potência interior que se lembrava  ter possuído num passado remoto, como dois minutos atrás.

-O que achou das opções de peixe? Ouvi dizer que aqui…

-Não têm frutos do mar ou peixe no cardápio– seu analfabetismo recém adquirido parecia não deixar margem a complacências– e agarrar-se a algum linguado com ou sem molho de alcaparras não o livraria de cumprir sua parte do jogo…

A imagem de algo salvador sendo trazido numa bandeja pelo indivíduo cansado e esnobe de camisa branca só faria sentido na forma de um polvo inteiro, o qual pudesse enrolar na cabeça enquanto não viessem lhe impor de volta a realidade, preciosos minutos de digestão do que acabara de ser-lhe enfiado ouvido abaixo.

-Independente de eu aceitar ou não a ideia na prática, tinha de ser o Cauã?! Ele sumiu com meu Leminski novinho, sempre nos impinge jazz fusion e samba rock naquelas festas horrorosas, usa…

-Você só está sendo infantil, não estou pedindo sua autorização, qualquer um que eu escolhesse ia fazer queimar seu fusível de machinho territorial, esse pelo menos…

-… camisa polo, barba desenhada, Loser Manos, Ivan Lins…

-Vou ao toalete enquanto você decide quando vai me fazer a delicadeza de conversar a sério, peço mais vinho?

-…florais de Bach, astrologia, sapa-tênis…

Só parou de bradar a sequência didática quando a relação entre a distância de Sônia e a estupefação das mesas ao lado atingiu níveis evidentes. Não conseguia reativar a estabilidade psíquica sob o peso de sua capacidade imaginativa lhe empurrando cenas de filmes pornôs vagabundos, pedreiros assoviando, oitenta e nove gigabites de piadas de corno ouvidas ao longo da vida, alces se matando a cabeçadas. Lembrou-se de uma tarde na sétima série quando sua paixão platônica aceitou sorrindo um selinho de um dos imbecis extrovertidos e então saíram andando de mãos dadas até o fim do ano letivo, percurso que teve de remendar com muita literatura pesada e metal depressivo, também se lembrou de imaginar coisas como uma cueca com algum logotipo chamativo caída sobre seus livros de Haicai, dedos impecáveis e amigos de manicures reconhecendo de passagem os esforços das profissionais da depilação. Não que fosse um dependente clássico de tristes farsas monogâmicas, o acordo estava lá para isso, mas uma coisa era não se meter a fazer perguntas ou exigências, outra era ser intimado a algo pontual com sujeito (composto) e predicado, um sinistro verbo intransitivo e inclusive o adjunto adverbial de desfaçatez, uma vez que seu próprio apartamento em comum fora eleito como infinitamente mais conveniente que um motel, cenário mais afeito a perfídias e dissimulações, segundo o ideário da protagonista; o esplêndido ménage com a amiga do Paraná finalmente exigia sua alérgica contrapartida. Não teve oportunidade de se torturar mais, Bobalhão Enfeitado se aproximava sorridente e confiante da lateral da mesa envolto em Calvin Kleins e Hugo Bosses, uma mão brilhante lhe era estendida à queima-roupa, base nas unhas, que ele segurou e também sorriu, paradoxalmente quase feliz pela nuvem de cosméticos livrá-lo de suas obsessões imaginativas.

-Olá, cheguei cedo demais?

Seu olfato não se decidia em classificar a presença como nauseante ou enjoativa, mas Lúcio não se permitia transparecer incertezas.

-Olá, não, fique tranquilo, estávamos só arrolando uns detalhes, bonita cor de camisa, salmão? Acrescenta um toque de protesto à mesa, aqui não se metem com peixes ou frutos do mar, uma pena, eu o convidaria a provar os mariscos.

-Olhe Lúcio, aproveitando que estamos a sós, não pense que foi ideia minha, estou falando mesmo sem saber como você lidou com o desejo dela, me falou hoje no almoço, também que iria falar com você antes do jantar e então…

-Em compensação ouvi dizer que aqui fazem um excelente frango capão, falta saber se à moda nordestina ou espanhola,

-CAUÃ! Tudo bem? Não faça cerimonia e puxe uma cadeira! Desculpe, estava no toalete, não o esperávamos tão cedo.

Lúcio: Tudo bem, eu posso terminar e enviar aquela lista por e-mail.

Cauã: Obrigado Sônia, tudo bem? -sentando-se- Então, pra falar a verdade não acho que seja uma boa ideia, li num artigo que…

Sônia: -Ah que besteira… Esses textos negativos se baseiam em pessoas convencionais, pra quem os ciúmes se manifestam como um câncer invencível, que até se metem a brincar com libertarismos e ai percebem estupefatos como é tênue o que os separa da vida carcerária, como já te expliquei eu e Lúcio temos uma relação de total confiança e ausência de posse, como aliás todas deveriam ser, disse a ele que queria que pegássemos uma mulher juntos, ai teve a Clarinha, ele certamente tem ou deveria ter suas amigas mais chegadas e eu possivelmente posso ter os meus ou minhas, temos essa regra de não expor o desnecessário, mas também poderíamos não tê-la, e agora quero experimentar como é a dinâmica com outro homem, embora o Lúcio seja hétero radic…

Lúcio: E escolhemos você porque é limpinho.

Sônia: EU escolhi você porque você é legal, sincero, próximo, tem as mesmas referências, gostos parecidos com a gente -olha de soslaio para Lúcio- e também porque ele escolheu a Clarinha, que eu adoro como amiga mas pra falar a verdade nem acho tão atraente.

Enquanto o garçom abria e servia uma nova garrafa de vinho Lúcio se questionava sobre a possibilidade de simplesmente sair dali, deixar o carro e a obrigação de participar da conversa e dos acontecimentos e andar na chuva, pisar nas poças d’água, entrar em ruas escuras, tentou se lembrar onde mesmo tinha visto uma jukebox com algumas pérolas de jazz chuvoso… Quando conheceu e se interessou por Sônia, encarava uma realidade psicológica na qual o menos cabível era um relacionamento estável que se traduzisse em regras de condutas e expectativas, não queria ser solicitado, não queria servir de vasilha para que alguém ternamente despejasse algo nele, por mais prazeroso que fosse o liquido morno a ocupar os contornos frios e vazios, queria seu centro de gravidade onde estava, um arranjo de liberdade e companheirismo soava o único aceitável, preferiu não arcar com o remorso futuro de não promovê-la: rios em comum, inclusos detritos, sincronia fina. Não imaginava o tamanho e espessura da tarântula que seu machismo insipiente e inusitado faria surgir automaticamente no estômago quando Sônia viesse com a realidade da contrapartida do ménage. Parecia fadado a continuar acariciando sua nova aquisição aracnídea estomacal até que conseguisse arrastar a conversa a uma terceira ou mesmo quarta garrafa, até que conseguisse arrastar seu ego esfarrapado até a terceira ou mesmo quarta hora da manhã seguinte…

 

 

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