Soslaios

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Você está prestando atenção? Acho que você não está interessado, será que vai chover hoje? Vai ser bom ficar em casa, mas queria que você ficasse também. Por mais que meu tempo seja tomado numa história que leio sobre o romance de camponeses num lugar que nunca fui e numa época que nunca vivi, por mais que dedique minutos de auto-tortura numa esteira para ver minha silhueta se adequar como quero no espelho, por mais que precise esconder de você um choro que abafei no banheiro, queria lhe contar sobre outra coisa que vi, um beija-flor que me viu nua da janela, a vizinha que xingou o porteiro num monólogo de gritos, a lâmpada que queimou e que, vitoriosa, não precisei de você para trocar. Não vai me dar um beijo antes de sair? Não esqueça de levar o guarda-chuva. Aguardarei ansiosa a chuva açoitar o telhado e expulsar da rua senhoras com o carrinho de feira abarrotado de salsão, invejarei o sorriso encharcado do flanelinha que despreza a chuva e debocha das balizas mal feitas. Oi, já chegou? Pois é, vi que você esqueceu o guarda-chuva atrás da porta, se molhou muito? Aqui está tudo bem, vou fazer um espaguete hoje. Sim, e por favor traga um vinho quando sair. Já tomei um café, vejo agora atravessando as gotas de chuva que repousam no vidro uma menina que se desprende da mão da avó para pular uma poça. Senti uma dor de cabeça após três desenhos de croquis que me absorveram junto com outras duas xícaras descontroladas de café. Chorei de novo no banheiro. Amaldiçoei a explicação confortável de tpm para mim mesma e mexi no seu guarda-roupa tirando aquele casaco de couro que você usou naquela festa em que testemunhei sua felicidade mais sincera sorrindo para mim. Vesti uma camisa de flanela sua durante o dia e tropecei no fio daquele videogame que odeio, triste por não tê-lo quebrado e precisar pedir mil desculpas a você. Tirei um selfie ridículo que não vou mostrar a ninguém, mas que salvei para guardar para sempre. A Jussara me ligou e ela contou uma doença grave da irmã que me fez sentir forte em poder confortá-la. Alô? Sou eu de novo. Já está saindo? Aproveite e traga um parmesão ralado que acabou. Estarei te esperando. Coloquei um colar que você não vai notar e enquanto delineava os olhos lembrei de um tapa que levei no rosto quando adolescente de um amigo que declinei um pedido nojento e nunca contei a você. Boa noite, querido.
Boa noite, aqui está o vinho e o parmesão. Trouxe também essas azeitonas que estavam por um bom preço e quase trouxe um pote de sorvete de pistache mas sei que você não gosta de pistache e não queria comer sozinho, embora ainda assim minha vontade tenha sido tão categórica que não permitiu que trouxesse de outro sabor para nós dois. Meu dia foi bom e o seu? Lembra que comentei que esqueci o guarda-chuva e que não me molhei muito ao chegar ao trabalho? Na verdade prefiro ainda esconder que deixei de propósito aquele entrave e cheguei ensopado. Minhas previsões no anemômetro das folhas de uma copaíba falharam, subestimei a trajetória de uma cumulonimbus. Por um momento senti raiva em precisar de você, mas esse espaguete está ótimo, quer mais vinho? Aproveito que, enquanto fecha os olhos para levar a taça à boca, acompanho seu gole que desce pelo pescoço até esse colar de sementes trançadas, que nunca perguntei onde você comprou e por que escolheu isso, mas alimento alguma simbologia que nunca decifrarei e passo a querer você sempre. Quer ajuda na louça? Enquanto mergulho talheres na torneira da pia refaço com deleite uma humilhação bem formulada e enviada a todos contatos são-paulinos após uma derrota espetacular no jogo de ontem. Ajeito um fio desconectado do videogame e adentro numa floresta tropical atirando em milicianos, ouço você quebrar um copo e lanço múltiplas granadas de um M32 que explodem um reservatório de combustível. Cansado de morrer, vejo você deitada na cama, vestida na minha camisa de flanela, roendo unha e alheia à televisão ligada. Quer mais vinho? Achei que iria gostar mesmo desse corte, repito uma resenha sorteada do google sobre a altitude de Mendoza e você escolhe o dedo médio para roer. Posso ver os desenhos que você fez hoje? Estão muito bonitos, você desdenha sem dizer nada de meu comentário que não consegue ir além da minha capacidade em resumir qualquer coleção em duas estações do ano consecutivas e quando considero declarar derrota você me detém, me aceita e me recebe.
Nos encontramos.

 

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Uma resposta para Soslaios

  1. andreia disse:

    adorei! texto rápido, com timing preciso

diga lá

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