Inextricável

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                Acuado pela ressaca, uma bexiga plena e um sonho no qual se debatia e gritava ao cozinheiro que o besuntava de molho inglês e mostarda canadense que se recusaria a entrar no forno se não expulsassem do restaurante o homem de gravata vermelha, estranha em meio aos tropeços e apalpadelas da escuridão a ausência de Suzana, duas garrafas de vinho branco não sendo causas suficientes para discussões que fossem seguidas de fugas na madrugada ou sua amnésia do fato, de modo que na volta do esguicho interminável e da água com limão espremido abre a porta e a encontra deitada seminua no chão do quarto ao lado, amparada da bagunça por um saco de dormir e o radinho chinês sussurrando música clássica, prefere não a incomodar e só tem oportunidade de entender dali a duas horas, nas primeiras claridades do domingo já abafado, quando o barulho de arrumações sorrateiras lhe denuncia o inexplicado anseio por rua e metrô, atividade ornamentada por olhos evasivos e incapazes de disfarçar lágrimas recentes. Depois de algum arranjo de palavras meigas com recusas rancorosas, em meio a abraços ele entende que havia sido punido por ter caído no sono em meio a confidências e assuntos delicados, a indignação, a revolta e o álcool, ela confessa já no tom de brincadeira, se traduzindo em uma momentânea mas palpável vontade de segurar até o fim o travesseiro com força sobre a cabeça daquele boneco estirado que exalava dificuldades de respiração e uvas fermentadas, informação que deflagra muitos risos, brigas de travesseiros e simulações eróticas de sufocamento na hora da conciliação aeróbica definitiva, bons termos internos e externos que os acompanhariam até bem depois da despedida carinhosa na catraca da segunda-feira, ela linha verde, ele azul.

 

                Naquele mesmo dia, retorno do almoço com colegas, fartas informações sobre futebol, cotações de preços de carros e programas televisivos praticados no fim de semana, olha seu rosto suado no espelho, com a boca a espumar e deformar-se com os movimentos invasivos da nova escova Y, agora com cerdas multicoloridas, e se imagina se debatendo desesperado sob um travesseiro inclemente, e como estivera por um momento vulnerável a um desejo assassino inesperado, pulsão que não fazia de modo algum parte do repertório psicológico de Suzana, era como se algo externo a tivesse dominado naquele momento delicado, uma força poderosíssima capaz de anular todos os meses de simbiose terna e selvagem, um pavor súbito inunda-lhe de suspeitas sobre eventos passados, um acidente de moto, uma pancadaria numa praia, um assalto na porta de restaurante, tudo fazia sentido, sempre tinha sentido essa presença sinistra, uma aura manipulante que parecia brincar com sua debilidade animal, sempre pronta a fechar-lhe a porta da morte nas costas, e sua própria namorada poderia servir de agente a essa Força (o Horla, pensou, em homenagem a Maupassant) , todos poderiam, sentia-se como o único imune à possibilidade de manipulação covarde, e isso gelou-lhe a espinha, se a Força ou Horla podia controlar a mente certamente também poderia lê-la, e daqui em diante Ela sabia que ele sabia. O resto da tarde foi inútil, até a dona Cleide da copa achou por bem questionar sobre sua saúde e da família e insistir em que tomasse um chazinho de estragão com camomila, surgidos não entendeu bem de onde, infusão cuja vista e cheiro o encheram de pavor, a coisa começava mais cedo do que imaginara. Conseguiu impor ao chefe sua necessidade urgente de ir embora mais cedo, não sem deixá-lo quase tão indignado quanto dona Cleide, usou uma moeda para sortear as bifurcações e transportes que ia tomando, o último um taxi que ganhou sua simpatia pelo motorista sonolento a esperar sua vez no ponto.

 

                À inevitável troca da primeira noite de sono por horas de planejamentos estratégicos, deveu-se uma série de procedimentos já postos em prática no dia seguinte, como o gradual afastamento de Suzana e a montagem de uma complicada armadilha noturna composta de barbantes, sinos e latas vazias, ninguém entrava mais em sua casa, enquanto a observação e a desconfiança que ele já admitia paranoicas proporcionaram-lhe nova descoberta: o Horla possuía seguidores conscientes! Umas pessoas suspeitas nas ruas, que não disfarçavam a hostilidade, com esses tinha de tomar mais cuidado, não precisariam estar sob efeito de uma vulnerabilidade psicológica pontual para jogar-lhe o carro por cima, atirar-lhe uma pedra na cabeça, injetar-lhe qualquer substância obscura no pescoço, constatação de molde a fazê-lo se isolar de maneira ainda mais definitiva, sabia bem que não estaria longe o dia em que sucessivas faltas, desatenções e obsessões o lançariam nas estatísticas de desemprego, mas por agora um problema mais interessante se impunha: como fazer para identificar e se aproximar de outros imunes?  Se existissem, deveriam caracterizar-se pelo racionalismo monolítico, pouca propensão a impulsividades e sentimentalismos, coisas como frieza e austeridade. Um pouco por solidão e outro em prol da organização de uma resistência sem esperanças se impõe achar uma solução, embora parecesse impossível identificar e evitar prosélitos farsantes do Horla, nada lhe ocorria que parecesse minimante confiável, frases e mensagens cifradas em redes sociais, anúncios de duplo sentido, escândalos calculados a atrair a imprensa, acaba por eleger um meio arcaico e trabalhoso, a investigação pessoal de indivíduos cujos grupos e ambientes fossem mais prováveis a camuflar inimigos do Horla.

 

                Talvez sob o efeito de ansiedades desesperadas ou de esperanças acumuladas três semanas bastam para fazê-lo se entusiasmar por uma professora de cálculo numa universidade particular que seus sorteios o fazem passar em frente de vez em quando, a fisionomia rígida e o desprezo acintoso por contato humano tinha-o atraído, seu cargo lhe facilitou as investigações e a espionagem, tudo parecia favorável, morava só num sobrado de uma ruazinha estreita na vila Madalena, tinha um namorado ou amante que aparecia por lá em dias preestabelecidos mas nunca dormia, horários regrados, um gato que sempre ficava olhando fixamente a rua pela janela (poderiam também se esfregar por aí a serviço do Horla?), uma vez procurou abordá-la na rua mas só conseguiu um olhar de desprezo, talvez o disfarce de carteiro, talvez seu próprio olhar inquiridor lhe fizesse parecido a um dos detestáveis sectários, não achou nada absurdo quando lhe surgiu a ideia de entrar sorrateiramente em sua casa e lá forçar o contato mutuamente salvador, a internet aí estava para facilitar-lhe questões menores como arrombamentos discretos e sedativos, se necessário.

 

                Aquela madrugada foi escolhida em função da lua nova, da pouca movimentação nos arredores e da impossibilidade de se aguentar mais tempo a tensão das expectativas, decidiu que o melhor seria ganhar o interior logo pela janela do quarto, ao invés de enfrentar portas, corredores escuros e tigelas de gatos, a dificuldade de escalada era o previsto, o mecanismo de destravamento o conhecido por binóculos e visitas a lojas especializadas, uma pequena fresta lhe adianta a visão do corpo seminu, a penumbra e a seminudez a deixava ainda mais encantadora do que as roupas sóbrias de professora,  conseguiu ser silencioso o suficiente para abrir as folhas da janela e entrar, seringa de dormonid preparada, sua ideia era sedá-la e então aplicar-lhe mordaças e amarras e só depois explicar-lhe tudo com calma, e se fosse mesmo o caso oferecer-lhe aliança e apoio contra o todo poderoso Horla. Um estalo na madeira do piso a acorda, o grito inevitável e o movimento brusco lança a seringa para baixo da cama, há um início de luta, o berro interminável o faz agir sem pensar, aperta o travesseiro com força sobre a cabeça dela. Silêncio. O gato vem esfregar-se ternamente em suas pernas, na frente da porta um labirinto de barbantes, latas vazias e sino.

 

               

               

 

                

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3 respostas para Inextricável

  1. cloudy godinho disse:

    Heyyyyyy, saudades de ler vcsssss… Bem vindos a minha boa leitura reflexiva, perturbadora, humana…abo!

    TUDODEBOM!!! Beijo Transcedental y Abraos de Anos Luz Cloudy Clau Ana

diga lá

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