Ótimo

A porta de aço subiu. “Bom dia, vamos acordar?”. Estava escuro, eu tinha quase conseguido esquecer. Um fio de ar frio escorrendo pelas frestas do cobertor. O funcionário vinha de Guaianazes, salvo engano, e se instalou com um bocejo atrás do balcão do caixa, bem ao lado da minha cama. Qualquer resistência, inútil. Esfreguei, arregalei os olhos, arranquei o calor que me protegia. Fiz menção de me espreguiçar, fui advertido: o café. Logo clientes. Ou fornecedores, ou algo que mal escuto porque é sempre, e pus a água no fogo e, claro, chegou o primeiro: “você lavou direito a panela? sabia que é melhor separar uma apenas para ferver água, pra não ficar gosto nem cheiro?” Desliguei o fogão, apanhei uma das que vieram no último pedido. Muito compreensivo, ou meio tonto de sono, não fez estardalhaço ao me lembrar que as panelas antiaderentes deveriam ser untadas com manteiga e aquecidas por cinco minutos antes do primeiro uso, para uma maior durabilidade. Já não era a primeira vez que eu tentava me fazer de besta, torcendo por uma desatenção da freguesia. Eu terminava de passar a água quando o próximo veio: “estudos comprovam que pessoas que não tomam o café da manhã ou somente tomam um café preto ao acordarem têm 10% mais chances de ganho de peso, pois o organismo fica com deficiência de nutrientes. O ideal é fazer a primeira refeição assim que acordar, nem que seja com um suco de fruta ou de soja, mas algo que reabasteça o organismo”.

Certo. O de soja eu tinha sido obrigado a abandonar depois da Unilever: restava um suco de laranja de dois dias atrás. Orgânico, certificado. Tinha acabado de tirar da geladeira quando distingui o terceiro cliente esbravejando sobre o balcão, que absurdo eu não respeitar um prazo de validade após aberto. Corri pra pia, despejei tudo abaixo. Por instinto, enxaguei e desdobrei o tetra-pack antes de jogar no cesto dos recicláveis, cuidado que me valeu o silêncio talvez satisfeito do próximo na fila, o das preocupações com o planeta. Contente comigo mesmo, cheguei a crer que poderia me sentar na poltrona por um instante, quem sabe tomar um gole do café, por frio que estivesse.

“Já viu seus emails?”.

Eu teria reconhecido aquele trinado estridente mesmo enterrado de cabeça pra baixo em um manguezal mongol. “Respondeu aquela mensagem no Facebook? E a previsão do tempo? Já viu a sátira que fizeram em cima do funk das perseguidas? Comentou o vídeo edificante que o avô do seu cunhado postou no seu mural?”. Procurei o notebook, estava exatamente ao lado da poltrona, ainda com o fio ligado. Atendi seus pedidos a toque de caixa, com toda a eficiência que a ausência de café me permitia. Só percebi que não teria dado conta de qualquer forma quando um ronco no meio do meu corpo mostrou que metade do dia já era. “China in Box Online”, disse ele, condescendente; corri com os dedos. Pelas horas seguintes outros clientes se revezavam na fila, alguns até pacientes, outros não, ameaçando derrubar o yakissoba das mãos do entregador com chapéu de chinês, exigindo pedidos mais baratos como saúde dentária e ligações para meu avô senil, reclamando da lâmpada queimada no hall da entrada e do excesso de teias de aranha na maçaneta. Com o canto do olho tive a impressão de perceber um pequeno mercado negro dos que estavam prestes a desistir, vendendo seus pontos aos que acabavam de chegar. Mas aquele pagava sempre à vista, e a ordem do dia era fechar no quanto fosse possível, aproveitar a moda inteira; e se os outros queriam tanto ser atendidos, porque não chegavam antes do café?

Meia-noite, 9gag, atualizações de software, comparações de preços e qualidades de smartphones, vídeos sobre as baleias Fin e Azul, retrucada a um comentário higienista numa matéria da Folha, a música da banda Ulan Bator, baixar um filme porque uma menina tinha membranas entre os dedos e havia um processo, e eu talvez tenha tido a pachorra de largar o notebook ao lado da poltrona e me arrastar para a cama, ignorando os novos pedidos de nosso melhor cliente. E talvez um cobertor, e uma voz absurda me desejando “bom descanso”, e talvez uma malha de aço descendo sobre a rua em direção a Capão Redondo.

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