Um purista

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“Sou macho pra caralho”, dizia, desde os nove. Tinha sido o primeiro do prédio a descobrir a punheta, traficar revistas pornográficas, bolinar a filha do síndico. Entre pogobol, patins e futebol, fazia críticas minuciosas sobre tetas, coxas e bundas. Sua palavra foi ganhando peso: garotinhas de menos de doze com ancas inferiores ficavam às moscas nas sinucas clandestinas do salão de festas, primeiras pequenas baladas garantidas por seu pai orgulhoso, condômino evangélico, locador e praticante de três outros apartamentos. Mas não as desprezava nas escadarias, como certa vez pôde comprovar, aos berros, a senhora do 71, num evento que lhe rendeu dois dias sem playstation e, ao pai, uma multa simbólica por violação do sossego.

Passava o tempo e ele seguia pelo caminho reto na apreciação estética e anatômica do animal mulher, com suporte paterno irrestrito, um quarto que começava a querer render processos cíveis pela barulheira e uma mãe que mal se via de tão crente.

Aos treze começou a sofisticar sua apreciação. A loirinha do 42 passou a frequentar menos o playground porque suas sardas não eram mais ignoráveis. A negrinha do 85 passava ligeira no hall social porque ele não tolerava peitos tão grandes. A moreninha do 64 olhava pra baixo no elevador porque sabia que tinha olheiras. Estava se sentindo tão grande que, em sua festa de quinze anos, pensou em retribuir uma bondade: falar de bondage àqueles tios de trinta e poucos que não eram totalmente evangélicos. Afinal, tinham lhe explicado o clitóris antes dos sete, o que lhe poupou algum trabalho mais tarde: parecia justo. Mas em meio à exposição percebeu que os sábios agora eram porcos, e então atirar pérolas seria perda de tempo mútua. Trocaram de assunto todos ao mesmo tempo, as divisões nos times sempre importavam muito.

Aos dezesseis começou a se sentir impedido. Primeiro por uma menina que poderia ser Gisele Bündchen, mas com um único e pequeno pelo fujão que orbitava o mamilo esquerdo. Nada que já não tivesse visto em outras – mas naquele idílio, naquela estátua, naquele momento? Teve o impulso de pagar o táxi dela, pra isso servia a mesada. Manhã depois, a camisinha vazia e triste sobre o chinelo o encarava. Achou legal revisitar cartilhas antigas de pureza. Num livro de biologia, área de conhecimento que de fato respeitava, descobriu um capítulo com as diferenças mais notáveis entre X e Y, com informações que não apareciam nos portais de celebridades e nos sites pornôs.

Viu que era um ignorante. Como tinha deixado passar assim o queixo quadrado da Olívia? Estaria cego, beijando a mão grande da Janaína? Não conseguia se perdoar por ter ficado ano passado, bêbado, com aquela de sobrancelhas tipo Malu Mader. Mas o grande tormento era a menina de voz grossa da semana passada.

Que ligou em seguida. Ele respondeu desafinado. Ela achou engraçado – até entender.

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