Amortecedores

Balde Ref.47
Na atmosfera, hoje, havia uma espécie de mau-olhado. Em suspensão, visível como a poeira iluminada por uma fresta na janela. Quarta-feira.

Era algo surdo, perigoso, pegajoso. Fim de dezembro.

Fim de tarde. Um besouro muito preto e alongado batia no lustre e caía de costas no capô do carro, ao lado da chave de boca. Eu o afastava com um peteleco.

Eu tinha acabado de trocar os amortecedores do Uno do Zé, que tinha deixado o carro pela manhã. Ele entrou correndo, suando frio, tropeçando na mangueira do compressor e na chave de roda, atirando a pasta de vendedor num canto cheio de graxa, implorando o banheiro, jurando de morte a feijoada do Pedroso, decidido a virar vegano assim que aliviasse os intestinos. Corri na frente, abri a porta e a passagem, pra não ser atropelado. Diante dela, naquela ofegada pré-alívio, teve uma hesitação inacreditável. De verde que estava passou a pálido. Deu meio passo pra trás, tampou a boca com as duas mãos, mas o vômito acabou espirrando na pressão, por entre os dedos, em várias direções, inclusive a minha. No esforço inútil de conter o estômago, descuidou do resto, que explodiu calças abaixo. O espantoso era que, mesmo sem o controle dos esfíncteres, o Zé prosseguia se afastando da porta aberta, deixando um triste rastro no chão já tão sujo de óleo e fuligem.

Sem saber o que fazer, espiei dentro do banheiro: nada de mais. Apoiado na parede oposta, segurando as calças, ele perguntou se eu não estava sentindo. Ah, claro. Óbvio. “Eu não tenho olfato”, respondi, e pensei imediatamente no Fudêncio, que andava sumido há mais tempo que o de costume. Chateado, fechei a porta. Deixei o Zé na área dos fundos, diante de sabão, torneira e uma bermuda velha. No banheiro, comecei a fuçar as prateleiras. Na de cima, dentro da caixa de papelão onde guardava os panos de chão limpos, encontrei o bichano. E uma multidão de bigatos, pequenas moscas, besouros pretos meio alongados. Faziam um zumbido indistinto que eu já tinha percebido antes. Achava que era de uma lâmpada fluorescente, que vinha ameaçavando queimar.

Fechei.

De bermuda, a uma distância segura, o Zé me observava. “Era o Fudêncio”, expliquei, mas sua expressão não amenizou. “É sério, não sinto cheiro de nada”. Ele resmungou um assentimento, me agradeceu pela bermuda e tirou o talão da pasta, os olhos presos no chão. Deixou o cheque sobre minha mesa, junto com uma nota de cinquenta, acenou com um positivo constrangido, deu a partida.

Eu ouvia os segundos do relógio na parede. Faltavam cinco pras seis. Peguei rodo, balde e um pano sujo.

Uma lâmpada fluorescente piscou duas, cinco vezes, e queimou.

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2 respostas para Amortecedores

  1. Esse mecânico deveria se chamar Edson…

diga lá

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