Nada de novo debaixo do sol

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O cheiro era de velas, flores e piadas fajutas, as primeiras a notar o movimento foram umas poucas moscas que vinham insistindo em pousar no velho Mascarenhas ainda com o desestimulo de um véu estranhamente encardido para seu uso único e exclusivo, depois a felicidade dos que choravam com alguma sinceridade somou-se à contrariedade estupefata dos herdeiros da grata surpresa da noite anterior, às crianças tanto fazia, não tinham entendido muito bem antes e agora apenas seguia-se outra sequencia aleatória de eventos do mundo dos adultos, exceção feita à Carminha, que se pôs a berrar, fugir para longe do avô que tentava se levantar, e potencializar os berros ainda mais ao se precipitar nuns arbustos ressecados e cortar a perna na proteção metálica do gramado, o velho Mascarenhas, depois de ser solicitamente ajudado a sair do caixão e se livrar do terço, das flores murchas e dos chumaços de algodão, recebia os apertos de mão e os tapinhas encorajadores nas costas e se divertia lendo os dizeres e as origens nas coroas enfileiradas ao redor, tia Selma, reconhecendo que o caráter único da situação não eliminava a possibilidade dos resfriados ou das pneumonias tinha saído às pressas a arranjar-lhe algum outro conjunto de roupas que não estivesse aberto de fora a fora na parte de trás, aproveitou para telefonar e dar as boas novas ao filho que estava a caminho do enterro vindo do interior, na verdade parado no trevo da saída do posto de serviços onde parara para o expresso com pão com manteiga na chapa, o outro viera na ânsia de chegar na marginal antes do inferno estático e enchera-lhe a porta direita e parte do para-lamas, esperavam a viatura da policia  e os guinchos das seguradoras, o que não respeitara a preferencial se prontificou a pagar todos os danos e conversavam animadamente sobre aeromodelismo e sites de prostitutas de luxo, os policiais se faziam esperar uma vez que a prioridade era o assalto a banco na rua Mariguela, a central reportara textualmente duas motos com quatro jovens vestidos de Ronald MacDonalds que tinham levado da agência do Banco Sinistro dois malotes com 800 mil reais cada um e os espalhavam pelas ruas das favelas por onde passavam, na agencia tinham sido deixadas  três pistolas de brinquedo e a simpatia dos clientes que puderam tirar fotos com seus aparelhos celulares ao lado dos bandidos, ao agente de segurança que fizera menção de reagir foi-lhe explicado pelo MacDonald mais baixinho que o alvo era só o dinheiro da instituição usurária  e que não valia a pena mover-se por aquela porcaria, que além do mais ia ser atirada às mãos cheias aos ventos das ruas de terra, noticia que dali a duas horas seria veiculada pelas rádios e televisões num tom neutro e contextualizado, uma pena a dona Matilde não estar agora a ouvir sua radio preferida de noticias, teria entendido melhor o que o filho tentara explicar às pressas enquanto tirava a fantasia e a maquiagem, lavava a louça e corria para não chegar atrasado na faculdade de direito, sempre ficava em duvida se era melhor descer no metrô São Bento ou na Sé, mas hoje valia a pena ficar a estação a mais, ao lado do casal afoito que se beijava, uma senhorinha de uns sessenta anos e uma punk negra, um garoto de rua saca o Iphone e inunda com volume máximo o vagão com o hit do momento:  Prozession, do Stockhausen.

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