quando você para de olhar, aquilo não está mais lá

despertador. “não é possível, justo agora. estava na praça, prestes a”. alcança cego o botão soneca. aos nove minutos retoma o sonho. aos dez, despertador. conforma-se, levanta, vai ao banheiro, escova os dentes, toma banho, esquece, enxuga-se, liga o rádio, prepara e bebe muito café, veste a camiseta menos suada e o jeans do outro dia. tranca a porta, bate nos bolsos: “celular, carteira, chaves, fones de ouvido”. lembra do lixo. reabre as duas trancas, deixa o molho de chaves pendurado na fechadura tetra, apanha os sacos que tinha largado no corredor, na noite anterior, “pra lembrar na saída”. chama o elevador, joga tudo de qualquer jeito no grande cesto comum, desce. no espelho sujo verifica se não esqueceu de vestir alguma peça de roupa ou “celular, carteira, chaves”. chaves. retorna ao seu andar, tranca a porta, retira as chaves da fechadura, desce novamente.

segue para o ponto de ônibus. “óculos escuros”, mas não estão na mochila, e voltar de novo está fora de questão, então só aperta um pouco os olhos, que se a dor de cabeça vier só estará insuportável lá pelo meio-dia, poderá comprar comprimidos quando for almoçar.

a condução chega. não há lugar para sentar. permanece em pé por uma hora, a mochila no colo de uma senhora muito benevolente que passou metade desse tempo tricotando preconceito com a amiga crente. no restante, conseguiu atingir um estágio muito próximo ao sono que, se não lhe devolveu a memória do sonho, ao menos fez tornar vazios aqueles minutos.

segue para o ponto de trabalho.

uma reta, uma curva. precisa fazer diferente, da próxima vez que passar por lá. precisa se matricular no curso de técnico em informática. estudar à noite, tomar mais café, passar menos tempo dormindo.

outra reta, outra curva. vê um catador de papelão arrastando sua carroça. é tomado por uma epifania: “eu também consigo”, só questão de bater com a água na própria bunda, antes que ela o fizesse por si, como fez com o catador.

tem a impressão de que já passou por esse pensamento antes. uma curva, uma reta, ponto de trabalho, trabalho, comprimidos, trabalho, uma reta, uma curva. tem a certeza de que vai se matricular no curso dia seguinte, na primeira hora.

uma curva, uma reta. vê um catador de papelão arrastando sua carroça e, num arrepio, parece que encontrou uma determinação infalível, parece que entende perfeitamente o mecanismo econômico necessário. uma curva, uma reta. lembra energicamente do livro empresarial que carrega consigo na mochila. retoma a leitura ali mesmo, na penumbra do ponto de ônibus, que chega com um assento disponível, como se uma força maior quisesse que ele prosseguisse na leitura por meia hora.

acorda dois pontos antes do seu, como se mesmo durante o sono estivesse sincronizado com o todo. o caminho para seu ponto de moradia é de êxtase e algum torpor. no elevador, aperta o botão errado, e atribui isso ao seu pouco hábito em seguir com o universo. acertando o andar e a porta, ele gira as chaves para abrir e para fechar. despe-se, deita e dorme.

despertador. “não é possível, justo agora. estava na praia, prestes a”.

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3 respostas para quando você para de olhar, aquilo não está mais lá

  1. Day disse:

    Amei esse personagem bifocal hehe! As letras minúsculas no início de cada frase tem a ver com a forma de viver dele, eu acho.

  2. as retas e curvas deram um curioso movimento circular ao texto… como um cão correndo atrás do próprio rabo… massa

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