Vai que dá

Autosave-File vom d-lab2/3 der AgfaPhoto GmbH
Por anos fui um corredor de ônibus. Não era esporte olímpico, então. Não é agora, com sorte nunca será. Exige um desprendimento descomunal, muito equilíbrio e, sobretudo, muito arranque, principalmente nas ladeiras de Santa Teresa ou da Lapa. Meus melhores desempenhos arrancaram xingamentos de gente esbarrada, atropelada, emburrada. E meus cinco dentes da frente. Verdade, não é todo quebra-molas que compreende, muito menos toda gente.

Pra ser franco, não conheci até então qualquer um que apreciasse plenamente esse esporte difícil e imprevisível, que ocorre somente quando há o encontro casual entre a necessidade de se fugir do lugar onde se estava antes, imediatamente e sem explicação, e um sentimento irresistível de pressa súbita diante de qualquer porta prestes a se fechar, influência da cultura neurótica paulistana, ou dos gatos, o que dá no mesmo, exceto se for o contrário.

Meu avô, meu maior ouvinte, arriscou certa vez uma observação quase sensata sobre o que faço, com relação aos ônibus em que se sobe pela porta dianteira, que no Rio de hoje em dia aparentemente são maioria. Segundo ele, o deslocamento para trás, em um veículo que vai pra frente, seria uma cretinice, segundo Einstein. Que eu tinha é que confiar em Deus, trabalhar como empacotador naquele mercado que ele me arranjou e ir alugar aquele quarto de pensão na periferia o mais breve possível. Pensando bem, disse isso mais de uma vez. Tenho a impressão de que, a cada uma delas, inventou nomes próprios diferentes para o mercado e para a periferia (para o de Deus, a criatividade faltou). Talvez minha manifesta influência paulistana tenha abalado seu sentimento de responsabilidade com a família carioca desportiva: de qualquer forma, já tinha percebido nele uma indignação filicida desde aquela vez em que, descendo com ele o caminho da padaria, arranquei de seu bolso os cinco reais do pãozinho e desabalei 423-Saracuruna abaixo, que ia acima, rebolante e totalmente necessário.

Porque o esporte não nos torna insensíveis, a despeito de toda a propaganda negativa da UFC e do xadrez. Ao menos não a mim. Não da forma como o compreendo. Correr ônibus me torna permeável, me faz perceber as picuinhas dos universos humanos – como essa, engraçadíssima, do meu avô querer me matar. Correr ônibus é minha forma de tomar a média das pessoas. Algumas se importam com seus mínimos ossos, cortes ridículos decorrentes de um esbarrão qualquer, até mesmo um penteado desarrumado. Algumas atingem fúrias ainda maiores quando seus aparelhos telefônicos pousam no chão de aço do coletivo – esse que meu próprio rosto conhece tão bem. Existe ainda quem se torna mendigo automaticamente e me pede desculpas por ser derrubado. Eu os respeito um pouco mais, depois que desço e penso um pouco. Se penso muito, não. Talvez porque seja muito próximo a caminhar, e caminhar me faz querer correr – ônibus, escadas, asfaltos, esteiras rolantes, areia movediça, sobre as águas, cabeças, sobre meus próprios pés, correr de volta, respirar ao contrário, dormir.

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