Atrasado

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http://www.flickr.com/photos/mellagi/8095905257/

Faltavam 18 minutos para chegar. Preso naquele congestionamento, só lhe restava ouvir notícias no rádio e elaborar alguma justificativa um pouco mais convincente pelo atraso. Olhava impotente para um velho de bengala que arrastava seu passo na calçada, ultrapassando três veículos que estavam à sua frente. O semáforo alternava cores mas os carros pouco avançavam. Quando alcançou o velho novamente, este acenou com a bengala e disse: “é no terreno da surpresa onde as possibilidades germinam!”. Entrou em outra rua. Ligou o GPS para traçar alguma outra rota alternativa. “Siga em frente”. A voz feminina lhe fornecia uma companhia serena em meio à ansiedade para se chegar no local. O trânsito estava um pouco mais fluido, o rádio continuava a propagar a potência de um novo Toyota que poderia muito bem estar parado naquela fila de carros congestionados. “A 300 metros, vire à esquerda”. Mudou a estação do rádio, girando o botão como uma roleta até parar numa música.  “A 100 metros, vire à esquerda”, alertou a voz calma do GPS. “A esperança é a luz que esconde a sombra do destino”, disse um verso da música que escutava. “Vire à esquerda”, disse a voz do GPS, sem se importar que a rua era contramão. Seguiu adiante. No GPS aparecia o aviso “traçando rota”, como num pedido de desculpas, mas se limitava a repetir reticências de um pensamento sem rosto.  Sem a companhia da voz feminina, teria que perguntar a alguém na rua. “Aquela esquina onde te deixei foi a mesma onde te encontrei”, relembrou-lhe a música que ainda o acompanhava. O sinal fechado foi a oportunidade para perguntar a um motociclista para onde teria que ir. “A oeste é para onde todos procuram Eldorado”, respondeu com a voz abafada pelo capacete. Agradeceu e partiu para a próxima esquerda que conseguiu virar. O GPS continuava mudo, a repetir reticências. “Bem alto vou num balão, mas quem me leva é o vento e o teu calor”, comentou o rádio. Avançou alguns quarteirões e pediu orientação de um Palio que estava estacionando. O Palio abriu o vidro e respondeu: “Para o norte, é aonde as andorinhas nidificam. Boa sorte!”. No cruzamento virou à direita e continuou por um túnel. “Dois vaga-lumes rabiscam bêbados a noite”, contava algum refrão daquela música no rádio. Guardou irritado o GPS com aquele cristal líquido pensativo em meio à escuridão do túnel. A música chiou até desaparecer. Quando avistou a luz do entardecer encontrou outro congestionamento, desta vez os carros desviavam de um acidente. Passou vagarosamente ao lado de um SUV capotado, de onde uma mulher ensanguentada lhe suspirou: “vá em direção ao Mediterrâneo, onde as mandrágoras crescem no seu entorno”. A equipe de resgate o dispersou e ele continuou até virar na próxima direita. “Em ti me esqueço do fim”, parecia o rádio ressuscitar e se despedir. As luzes da cidade se acendem e ele atravessa uma ponte. Consegue parar no meio do viaduto, desliga o rádio e um ciclista lhe avisa: “Já escurece. Olhe para o céu, onde o Cruzeiro aponta o sul”. Já não sabia onde estava, nem para onde ir. Ela já deveria ter ido embora. Sentiu falta que, naquele instante, ela não poderia admirar ao seu lado e perdida também, a piracema de faróis vermelhos enfrentando o rio de asfalto.

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