Microscópio, fraldas e salto alto

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Estranhei no começo ao entrar na sala e ver aquela mesa que não costumava estar ali. Na verdade, duas mesas de ferro unidas por uma toalha branca que cobria uma propaganda de cerveja e deixava à mostra garrafas de outras marcas, refrigerante, pratos de doces e salgados. Os quadros de mulheres nuas compartilhavam a parede com bexigas e os dizeres de boas vindas. Ao lado da mesa, sentada sobre uma poltrona, Valkiria (era esse o nome que todos a chamavam) disparava sorrisos enquanto segurava sua criança. Enrolada em um cobertor, os olhos inchados e fechados e os cabelos arrepiados contrastavam com o sono profundo, como se enfim descansasse após a árdua tarefa de nascer. Estranhei ver Valkiria com aquela roupa, moleton e chinelos, o cabelo mais curto, após pedir licença do plantel. Quando souberam que estava grávida, alguns clientes telefonaram para a casa a respeito de uma barriguinha. A casa fez até uma proposta, com convênio. Ficou até os 8 meses, praticamente no auge da procura. Parou por recomendação do médico do convênio, me disseram. Torel, o gerente da casa, parecia satisfeito com esfihas e coca-cola, afinal cedeu o aquele domingo de manhã – sim, a casa ficava fechada – para o pessoal arrumar a festa.

Quando dei o microscópio fui atingido por mais um sorriso de Edilene (esse, pelo que soube, era o nome verdadeiro de Valkiria) e o sono da criança, que gemeu um pouquinho. Poderia com aquele microscópio ver o que ninguém de perto percebia. E, ao mesmo tempo, exploraria mais daquele universo minúsculo, feito de monstros eviscerados que partiam de formigas pisadas. Em breve a gente se esquece dos detalhes, talvez por serem pequenos demais, óbvios demais, e basta esquecermos deles para nunca mais receber aquele telefonema, para deixar passar uma promoção, para enguiçar o trem de pouso. E aí quem passa a perna é o que menos se percebe. Não poderia garantir que o microscópio pudesse fazer enxergar mais de perto as nuances de uma dissimulação franzida; aumentar as letras miúdas de notas de rodapé que acompanham a todo contrato com aparente lealdade; sei que eu já não poderia mais me enfiar num túnel feito de cadeiras enfileiradas com chicletes grudados embaixo dos assentos. Não mexe nisso, moleque! Caca! Mas ele iria começar a se interessar nas pequenas coisas que ao longo dos anos perderam sua significância; a tentação em apertar o focinho do cão ou mexer na tomada, introduzir dedos curiosos no que possa mostrar seus dentes elétricos.

Não sei como vai ser para Sara, que dividia um quarto com Valkiria na casa. Andaram falando que ela queria mudar de vida, logo quando previu que choro de bebê seria acrescido aos gritos e chicotadas vindos de outro quarto. Sara estava sentada numa das cadeiras de ferro, com um prato de pedaço de torta sobre uma apostila de concurso.  Na sala também estava um mineiro chamado Lúcio, que trazia um caminhão de brinquedo e outro cara já meio bêbado, com uma ampulheta para a criança. Outras meninas chegaram, algumas com os seus maridos, namorados ou filhos.

Eu era o entregador de lanches. Até ganhei desconto por lá. Mas a mais gostosa era a Fran, que tirava fotos da festa e acabara de ser advertida novamente para apagar o cigarro. Que boquete! Mas resolvi namorar a menina do caixa da loja de 1,99. Disse para ela que iria a uma festa do sobrinho, mas senti que queria que a levasse junto, para conhecer enfim minha família. Mudei logo de assunto, propondo outra coisa mais interessante para se fazer no domingo mais tarde. Ficou um pouco chateada, verdade. É, a coisa tá ficando séria. Se ela tivesse um microscópio, veria os resíduos da sujeira que eu tentava limpar.

Clotilde (a antiga Joyce e atual gerente das meninas) cumprimentou-me com um prato de croquetes, empadas e um copo de cerveja. Supunha que aquela sala nunca ficou tão animada como naquela manhã, geralmente ocupada nos outros dias por clientes que avaliam concentrados a aparência do serviço que se dispõem a pagar. Em menos de uma hora, entrou um cliente assíduo de Valkiria:

– Eu sou o pai dessa criança!

Em menos de três minutos, o cliente foi expulso da casa. Valkiria recolheu sua metralhadora de sorrisos e contorceu-se em volta do bebê. A criança começou a chorar. Torel avisou que não queria mais aquele cliente em sua casa. Joyce recolheu copos e pratos vazios. Algumas meninas cochichavam, outras foram apoiar Edilene (já não era mais Valkiria) e a criança. O mineiro e a Fran pareciam querer resolver outros assuntos. Eu já não saberia decifrar o que havia no meio de mensagem trocadas, de um buquê de flores, de cacos de vidro quebrado, de uma sacola de couro preta que pudesse conter livros e cintas fálicas. Não sei se Valkiria neste momento está pensando num teste de paternidade ou numa passagem só de ida para alguma cidade do Paraná. A criança enfim sossega com o peito siliconado de Valkiria.  Quem sabe um dia ela poderia ver no microscópio que, de perto, todos temos espinhos. Retráteis. Eu já vi. Umas duas vezes.

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