Síndrome

Cheguei atrasado à escola para fazer a recuperação em Ciências Cidadãs, pois houve demora na entrega de meu troféu de primeiro lugar no torneio regional de xadrez. Ganhei o torneio mas bombei de ano, de novo. Só me restava voltar para casa e estava sem dinheiro. Negociei com o motorista do táxi a metade da corrida até minha casa pelo troféu, que poderia então mostrar aos seus amigos do ponto de táxi e do bilhar que seu filho era tão bom em Ciências Cidadãs quanto em xadrez. Porém, o desgraçado me deixou numa esquina onde a faixa de pedestres era em número ímpar. Pois será que ele não sabe que ao pisar numa das listras brancas com um pé o outro vai pisar em menos faixas? Não podia tolerar aquela desigualdade de pisadas em cada pé e tive que sair pela mesma calçada até outra esquina onde houvesse uma faixa de pedestres com número par de listras brancas. Já estava dando a terceira volta pelo quarteirão, sem sucesso em encontrar uma faixa de pedestre com número par de listras brancas, quando a fome apertou e entrei num bar para comer um cachorro-quente. Como não tinha dinheiro, e o garçom me entregou o cachorro-quente numa mão sem estender imediatamente a outra, aguardando as moedas que sacramentariam a justa troca, achei que havia me dado o cachorro-quente de bom grado, mas fazer o que, bombei em Ciências Cidadãs, não foi suficiente para que o dono do bar perdoasse minha inépcia nas artes das transações comerciais, e tive que lavar pratos até cobrir o valor do cachorro-quente consumido. Porém, ao observar minha destreza em lavar pratos, onde não apenas prestava pela rapidez como também pelo asseio e capricho em todo aparelho de louças, tornando-os praticamente imaculados como a Virgem Maria, o dono do bar me contratou à sua cozinha e dispensou o antigo lavador de pratos, que o máximo que conseguia fazer era espantar moscas e retirar de má vontade alguma crosta de gordura que se impregnava numa panela. Ganhando o mesmo mísero salário que ele, meu novo chefe concordou em adiantar minha corrida até minha casa com a condição que fizesse hora-extra amanhã para compensar o prejuízo, situação que achei justíssima, uma vez que a contabilidade de seu estabelecimento ia de mal a pior, dado o balanço do mês que pude xeretar de relance em seu caderno enquanto ele assoava o nariz. Sugeri que cortasse a propina inserida na terceira linha de suas anotações que tinha que dar ao fiscal da prefeitura, condição sob a qual obtinha permissão em deixar aberto seu estabelecimento. Esta proposta levou à minha instantânea demissão, mas também a uma generosa indenização, já que o fiz perceber, após um discurso incessante, que o valor da propina paga estava acima do preço de mercado das propinas cobradas naquele bairro, dando valores que oscilam conforme o humor do fiscal nas estações do ano e quando se comemoram os finados e o carnaval. Com um valor que dava para comprar cinco troféus de torneios regionais de xadrez, consegui outro táxi que poderia me deixar finalmente em casa. Porém, ao entrar no táxi, eu já não era mais eu, mas o outro eu, aquele que tinha um seminário para apresentar daqui a vinte minutos e pedi para que o taxista me levasse ao auditório da Universidade. Lá chegando fizeram minhas apresentações curriculares e comecei minha explanação em torno de minha tese principal: de que nos afastamos da natureza a partir do momento que priorizamos o olho em detrimento do nariz, e que toda filosofia provém desse axioma. Trinta minutos depois da palestra e dos efusivos aplausos vieram as perguntas, às quais respondia com citações gregas, latinas, chinesas e até portuguesas, mas enfim percebi que as perguntas não vinham de nenhum membro da plateia, cujos membros se entreolhavam não por causa da complexidade de meu discurso, nem pelo espanto da verdade que emanava de minha boca, mas devido ao estranhamento da situação que eu não respondia a um interlocutor visível, mas àquela voz que insistia em refutar tudo o que até então eu sustentava, demonstrando que nem era o olho ou o nariz, e sim o ouvido que me arrancava tanto da cultura quanto da natureza. Não bastou que eu treplicasse com a citação de um pensador marroquino, a voz continuava a ruir meu sistema de pensamento até que, por educação, a plateia interrompeu aquela voz impertinente com aplausos constrangidos, e depois furiosos, para calar o que ainda estava sussurrando dentro de minha cabeça, mas agradeci a todos pela presença e saí do púlpito (afinal, eu não era mais aquele eu que bombou em Ciências Cidadãs e sabia sair educadamente). Todos já voltavam às suas casas e ainda sobrava em meus bolsos dinheiro referente a três troféus e meio de torneio de xadrez regional, quantia suficiente para me levar a um sex shop e voltar a pé para casa. Lá comprei uma máscara de látex com mordaça, com que pude atravessar a noite abafando meus gritos por achar que iria morrer ou perder a consulta marcada. Já no dia seguinte, não me importava mais, a morte e a vida se misturavam numa massa indistinta de inércia e pulsação, e passei a manhã estirado na cama ouvindo o ranger de meus órgãos internos. Enfim o telefone tocou e finalmente confirmei a consulta com o podólogo que esperava há meses.

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Dúvida

Ela atende no quarto toque, ou o equivalente na musiquinha do star wars do aparelho dela, Oi, Oi, Tudo bem etc etc, Uma pergunta, Diga, Se eu achasse um gato na rua, desses bem estropiados, o que seria melhor, trazer pra casa e sacada aberta no décimo segundo ou largar lá e carros, fome, chuva e pessoas filhas da puta, Você podia mandar pôr tela, Não é uma opção, O que custa, aí ele pode cair, Sim, por isso a pergunta, Você pegou o gato, Estou pedindo sua opinião, Qual o problema de pôr tela, Perder a sensação de espaço aberto, de poder debruçar, ficar escorado, apoiar a cerveja, seguir protocolo, Que protocolo, O de donos de gato, ou pais, curadores, brothers, sei lá como chamam agora, Você não gosta de gato, só veio com isso pra encher o saco, Isso magoa sabia, ver o bichinho lá e querer ajudar e ainda ouvir isso, Deixa de ser cínico, isso é verdade ou é encheção, Por que ia ligar quase uma da manhã, Olha, se o bichinho estivesse numa situação bem ruim como você falou acho que valeria o risco até achar alguém responsável que quisesse adotar, mas só pela situação de emergência, senão você teria de deixar de ser egoísta e colocar tela SIM, Se eu pensasse nisso de tela quanto tempo você acha que seria razoável eu demorar pra colocar, Ah, não sei, o quanto antes, Quantos dias, Tá, dois ou três dias tudo bem, mas prestando muit.., Legal, valeu, Era só isso, Sim, Se você pegar o gatinho ou já pegou manda foto, vou querer ver, que nome, Melhor deixar pra lá, Era só pra azucrinar mesmo né, como você é tonto, A gente se fala, Tá em casa, Não, Saiu pra beber, Também não, Quer vir pra cá depois, Não posso, Por que, Delegacia, o gato caiu numas crianças lá no playground.

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Eclipse

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Noite de sábado, vozes e barulho que vêm da rua incutem uma vontade indefinível de que alguma coisa aconteça, algo diferente do estado concha do costume, ao mesmo tempo que a perspectiva da interação traz o abatimento e o apego ao conforto na medida ideal à indecisão neurótica, desconforto inutilmente adoçado à força de álcool ou o similar mais à mão, música e fiapos digitalizados de sintonia humana, assim poderia algum metódico olhar para os últimos ciclos de nada e dar um suspiro estatístico enquanto constata o empate delicado entre força e desespero, teimosia e abertura, orgulho e aceitação, medo e pertencimento, mas o estresse decorrente da canastrice taoista vinha causando fraturas no decorrer da falsa fluidez, de maneira que noites como a de hoje faziam cada vez mais parte do que se cristalizava como a única realidade.
Nem tinha o direito de olhar para o oco com perplexidade, qualquer que fosse o nível de cretina que a adjetivasse, o domínio côncavo vinha se estabelecendo e sendo festejado há tempos, orgulho fajuto de argônio torcendo o nariz para o resto da tabela periódica, mas agora não sabia se sofria de falta de imaginação ou superestima da própria estrutura, e também não quanto tempo mais duraria o teatro na frente do espelho (convexo), seu talento no papel de ser vivo ou na pedra de ser morto ou na tesoura de ser liberto.
Numa noite como agora, quando a cortina mágica volta a ser o abismo dos pingos remotos de fornalhas de fusão nuclear, é fácil e salvador se lambuzar no fascínio das infinitas possibilidades de não ter existido, contra a fatalidade inimaginável de estar aqui, AQUI, segurando uma garrafa de cerveja meio quente enquanto gritam truco ali numa mesa de felizes.

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Extensões

As bitucas de cigarro que brotaram ao redor do pacová confessaram a Jasmim que Renan não havia dormido bem aquela noite. O café pela metade na xícara cronometrou a pressa de Jasmim para chegar a tempo na consulta das oito. A manchete na página de esportes do jornal vaticinava os dons oraculares de Renan sobre a última rodada do campeonato paulista. Uma bíblia aberta no criado-mudo de Jasmim salmodiava para uma vaga de arquiteta no Tatuapé. A curtida de Renan numa foto de Boiçucanga tentava convencer Jasmim sobre aquela ideia de casa na praia.  O aparelho em silêncio de Jasmim angustiava a falta de notícias sobre a dosagem de creatinina de sua mãe em Feira de Santana. O toque insistente e ignorado do celular de Renan implorava por mais um depósito na conta de seu irmão este mês. O novo corte nos cabelos de Jasmim dessa semana repetia sua rotineira inconstância. O par de sapatos que Renan comprou da mesma cor que os velhos sustentavam sua vacilante segurança. Um gato desenhado no rodapé da lista do mercado miava a conversa de Jasmim com uma amiga ao telefone sobre siameses e variações de receitas com berinjelas. Um garrancho sobre o cabeçalho da fatura do cartão de crédito monologava cálculos probabilísticos de Renan. A receita do detox pendurada na geladeira prometia uma trégua a Jasmim consigo mesma. O espelho no banheiro acareou as caretas matinais que Renan fazia a interlocutores imaginários. Dois cálices emparelhados sobre a mesa convidaram Jasmim e Renan para um jantar. A agenda em branco de Renan esqueceu a data de hoje. A batida na porta deixou Renan para fora do quarto. Nem o quindim, doce preferido de Jasmim, conseguiu se desculpar naquela noite.

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Acontecer

A velha abre a porta da casa e mergulha na luz da manhã. Senta na varanda, pousa a peneira sobre o colo e se cobre com a sombra da moringa. Traz um fardo de feijões e espalha um punhado na peneira. Chocalha os grãos em resposta ao cumprimento dos piados que ouve logo cedo. Recolhe num canto da arupemba os feijões e passa a contar um a um para o outro canto. Chega um senhor que se aproxima vagarosamente pela calçada e acena à velha com a mão livre enquanto a outra prende com força um grande envelope que amassa junto ao corpo.

– Bom dia, minha senhora, levo estes exames que recuso abrir desde quando desidrogenase lática passou a comparecer no meu vocabulário. Daí então cobre com seu volume crescente os prontuários e toma lugar das outras palavras que costumava dizer, como “sereno”, quando o sol se esconde e esfria a rua. E eu que nunca fumei, que deixei de comer pão branco, que substituí o ritual do pastel de carne da feira pela missa aos domingos, que faço minhas caminhadas, mesmo assim meus órgãos se amotinam. Equilibro hemoglobinas num intervalo entre números, mas a dor perfura. O dia é pautado conforme o horário de dezenas de remédios e a boca seca não liberta a voz quando recebo o telefonema de um neto. Já não cabe o sal em seus feijões, minha senhora, o sabor esmorece a favor da insipidez do alimento necessário. Rejuvenesço na memória rostos que alguns não estão mais aqui, releio imprecações, reescrevo declarações; me calo quando meu corpo grita tudo o que fiz e o que fizeram de mim.  Conte seus feijões mais devagar, minha senhora, para que eu possa um dia voltar ao norte onde nasci ou ir para o fim do sul e ver a neve de perto.

O senhor se despediu da velha que continuava a separar os feijões. Em seguida vem a garota depressa batendo chinelo pela calçada.

– Bom dia, florzinha, hoje mal posso respirar. Ele me ligou e disse que vai chegar. Somente daqui a quatro dias, eu sei, mas atravesso as semanas, os meses e os anos com ele. As canções que me acompanham e ecoam na sua fala melodiam a promessa de um beijo que se renova nas seguidas bodas que o tempo irá enobrecer. Já me deleito com os frutos de uma semente que ainda está por germinar e uma alegria dissipa qualquer receio de que voltarei ao exílio, à solidão no deserto da multidão mas sem o olhar daquele que me espelha. Em breve terei com quem ser para além de mim, enlace de vidas cujo trançado nos une. Estendo-me em outro corpo, colisão de astros que gravitam entre si. Terei a mão que irá segurar a minha e nos levaremos aos mais diversos cenários onde seremos protagonistas um do outro. Já sinto o cheiro de seus feijões e de mil temperos que explodem em minha boca. Conte depressa seus feijões, minha flor, para que ele venha logo e possa encontrar minha história na dele e continuarmos numa só.

A garota se despede da velha que deixa seu lugar para a criança que estava logo atrás. A velha sorri e continua a mexer com a mão os feijões na peneira. A criança se aproxima no parapeito da varanda e é convidada a entrar.

– O que você está fazendo? Ouço você repetir a pergunta para si quando já esqueceu o porquê das coisas que faz. Mas para mim é todo um encanto escondido nessa aparente simplicidade de separar feijões, que peço para você traduzir. Faço como você faz e imito seus feijões em pedras que conto na peneira de giz riscado no chão. Entretenho em ouvir quando faz de sua peneira um xequerê plano e põe seus feijões a cantar. Observo a maestria com que esses grãos são separados por entre seus dedos nodosos e esse é o espetáculo que me encanta. Vivo sob esse eterno tirocínio que me faz abrir a tudo o que você cria ou destrói, como você varre, fabrica, corta e costura o tempo. Procuro entender o que te faz ora rir e ora chorar quando olha a este amontoado de papéis rabiscados; o espanto quando me revela que deixa de ser velha ao me mostrar uma fotografia amarelecida de uma menina. Tudo é mágica. Não pare de contar seus feijões. Transponho nos meus brinquedos sua cozinha, suas máquinas, suas engenharias. Reconstituo nas faces enrijecidas de bonecos tanto eu quanto você e todos que nos cercam, que uma vez se querem e outra se repelem como costumamos fazer. Enceno suas festas e suas guerras. Derramo seus feijões com imperícia, queimarei um dia o meu guisado. Mas não pare de contar.

Logo em seguida outras crianças da rua chamam aquela que estava com a velha, que parte sem se despedir deixando pedrinhas no chão. A velha descarta no pé da moringa os feijões que não servem e volta para dentro de casa.

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Bizarre Porre Triangle

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Devia ter escolhido o prato antes de Sônia começar a falar, agora mal conseguia distinguir a língua portuguesa em meio àquelas ininteligíveis possibilidades de indigestão, a garganta travada até para o vinho branco, um Chardonnay espetacular que se convertia instantaneamente em descarte de banheira ou lubrificante a base de petróleo, cuja lata segurava e olhava de maneira desesperadamente relaxada e casual, tentando associar a realidade do óleo Chardonnay a alguma potência interior que se lembrava  ter possuído num passado remoto, como dois minutos atrás.

-O que achou das opções de peixe? Ouvi dizer que aqui…

-Não têm frutos do mar ou peixe no cardápio– seu analfabetismo recém adquirido parecia não deixar margem a complacências– e agarrar-se a algum linguado com ou sem molho de alcaparras não o livraria de cumprir sua parte do jogo…

A imagem de algo salvador sendo trazido numa bandeja pelo indivíduo cansado e esnobe de camisa branca só faria sentido na forma de um polvo inteiro, o qual pudesse enrolar na cabeça enquanto não viessem lhe impor de volta a realidade, preciosos minutos de digestão do que acabara de ser-lhe enfiado ouvido abaixo.

-Independente de eu aceitar ou não a ideia na prática, tinha de ser o Cauã?! Ele sumiu com meu Leminski novinho, sempre nos impinge jazz fusion e samba rock naquelas festas horrorosas, usa…

-Você só está sendo infantil, não estou pedindo sua autorização, qualquer um que eu escolhesse ia fazer queimar seu fusível de machinho territorial, esse pelo menos…

-… camisa polo, barba desenhada, Loser Manos, Ivan Lins…

-Vou ao toalete enquanto você decide quando vai me fazer a delicadeza de conversar a sério, peço mais vinho?

-…florais de Bach, astrologia, sapa-tênis…

Só parou de bradar a sequência didática quando a relação entre a distância de Sônia e a estupefação das mesas ao lado atingiu níveis evidentes. Não conseguia reativar a estabilidade psíquica sob o peso de sua capacidade imaginativa lhe empurrando cenas de filmes pornôs vagabundos, pedreiros assoviando, oitenta e nove gigabites de piadas de corno ouvidas ao longo da vida, alces se matando a cabeçadas. Lembrou-se de uma tarde na sétima série quando sua paixão platônica aceitou sorrindo um selinho de um dos imbecis extrovertidos e então saíram andando de mãos dadas até o fim do ano letivo, percurso que teve de remendar com muita literatura pesada e metal depressivo, também se lembrou de imaginar coisas como uma cueca com algum logotipo chamativo caída sobre seus livros de Haicai, dedos impecáveis e amigos de manicures reconhecendo de passagem os esforços das profissionais da depilação. Não que fosse um dependente clássico de tristes farsas monogâmicas, o acordo estava lá para isso, mas uma coisa era não se meter a fazer perguntas ou exigências, outra era ser intimado a algo pontual com sujeito (composto) e predicado, um sinistro verbo intransitivo e inclusive o adjunto adverbial de desfaçatez, uma vez que seu próprio apartamento em comum fora eleito como infinitamente mais conveniente que um motel, cenário mais afeito a perfídias e dissimulações, segundo o ideário da protagonista; o esplêndido ménage com a amiga do Paraná finalmente exigia sua alérgica contrapartida. Não teve oportunidade de se torturar mais, Bobalhão Enfeitado se aproximava sorridente e confiante da lateral da mesa envolto em Calvin Kleins e Hugo Bosses, uma mão brilhante lhe era estendida à queima-roupa, base nas unhas, que ele segurou e também sorriu, paradoxalmente quase feliz pela nuvem de cosméticos livrá-lo de suas obsessões imaginativas.

-Olá, cheguei cedo demais?

Seu olfato não se decidia em classificar a presença como nauseante ou enjoativa, mas Lúcio não se permitia transparecer incertezas.

-Olá, não, fique tranquilo, estávamos só arrolando uns detalhes, bonita cor de camisa, salmão? Acrescenta um toque de protesto à mesa, aqui não se metem com peixes ou frutos do mar, uma pena, eu o convidaria a provar os mariscos.

-Olhe Lúcio, aproveitando que estamos a sós, não pense que foi ideia minha, estou falando mesmo sem saber como você lidou com o desejo dela, me falou hoje no almoço, também que iria falar com você antes do jantar e então…

-Em compensação ouvi dizer que aqui fazem um excelente frango capão, falta saber se à moda nordestina ou espanhola,

-CAUÃ! Tudo bem? Não faça cerimonia e puxe uma cadeira! Desculpe, estava no toalete, não o esperávamos tão cedo.

Lúcio: Tudo bem, eu posso terminar e enviar aquela lista por e-mail.

Cauã: Obrigado Sônia, tudo bem? -sentando-se- Então, pra falar a verdade não acho que seja uma boa ideia, li num artigo que…

Sônia: -Ah que besteira… Esses textos negativos se baseiam em pessoas convencionais, pra quem os ciúmes se manifestam como um câncer invencível, que até se metem a brincar com libertarismos e ai percebem estupefatos como é tênue o que os separa da vida carcerária, como já te expliquei eu e Lúcio temos uma relação de total confiança e ausência de posse, como aliás todas deveriam ser, disse a ele que queria que pegássemos uma mulher juntos, ai teve a Clarinha, ele certamente tem ou deveria ter suas amigas mais chegadas e eu possivelmente posso ter os meus ou minhas, temos essa regra de não expor o desnecessário, mas também poderíamos não tê-la, e agora quero experimentar como é a dinâmica com outro homem, embora o Lúcio seja hétero radic…

Lúcio: E escolhemos você porque é limpinho.

Sônia: EU escolhi você porque você é legal, sincero, próximo, tem as mesmas referências, gostos parecidos com a gente -olha de soslaio para Lúcio- e também porque ele escolheu a Clarinha, que eu adoro como amiga mas pra falar a verdade nem acho tão atraente.

Enquanto o garçom abria e servia uma nova garrafa de vinho Lúcio se questionava sobre a possibilidade de simplesmente sair dali, deixar o carro e a obrigação de participar da conversa e dos acontecimentos e andar na chuva, pisar nas poças d’água, entrar em ruas escuras, tentou se lembrar onde mesmo tinha visto uma jukebox com algumas pérolas de jazz chuvoso… Quando conheceu e se interessou por Sônia, encarava uma realidade psicológica na qual o menos cabível era um relacionamento estável que se traduzisse em regras de condutas e expectativas, não queria ser solicitado, não queria servir de vasilha para que alguém ternamente despejasse algo nele, por mais prazeroso que fosse o liquido morno a ocupar os contornos frios e vazios, queria seu centro de gravidade onde estava, um arranjo de liberdade e companheirismo soava o único aceitável, preferiu não arcar com o remorso futuro de não promovê-la: rios em comum, inclusos detritos, sincronia fina. Não imaginava o tamanho e espessura da tarântula que seu machismo insipiente e inusitado faria surgir automaticamente no estômago quando Sônia viesse com a realidade da contrapartida do ménage. Parecia fadado a continuar acariciando sua nova aquisição aracnídea estomacal até que conseguisse arrastar a conversa a uma terceira ou mesmo quarta garrafa, até que conseguisse arrastar seu ego esfarrapado até a terceira ou mesmo quarta hora da manhã seguinte…

 

 

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Soslaios

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Você está prestando atenção? Acho que você não está interessado, será que vai chover hoje? Vai ser bom ficar em casa, mas queria que você ficasse também. Por mais que meu tempo seja tomado numa história que leio sobre o romance de camponeses num lugar que nunca fui e numa época que nunca vivi, por mais que dedique minutos de auto-tortura numa esteira para ver minha silhueta se adequar como quero no espelho, por mais que precise esconder de você um choro que abafei no banheiro, queria lhe contar sobre outra coisa que vi, um beija-flor que me viu nua da janela, a vizinha que xingou o porteiro num monólogo de gritos, a lâmpada que queimou e que, vitoriosa, não precisei de você para trocar. Não vai me dar um beijo antes de sair? Não esqueça de levar o guarda-chuva. Aguardarei ansiosa a chuva açoitar o telhado e expulsar da rua senhoras com o carrinho de feira abarrotado de salsão, invejarei o sorriso encharcado do flanelinha que despreza a chuva e debocha das balizas mal feitas. Oi, já chegou? Pois é, vi que você esqueceu o guarda-chuva atrás da porta, se molhou muito? Aqui está tudo bem, vou fazer um espaguete hoje. Sim, e por favor traga um vinho quando sair. Já tomei um café, vejo agora atravessando as gotas de chuva que repousam no vidro uma menina que se desprende da mão da avó para pular uma poça. Senti uma dor de cabeça após três desenhos de croquis que me absorveram junto com outras duas xícaras descontroladas de café. Chorei de novo no banheiro. Amaldiçoei a explicação confortável de tpm para mim mesma e mexi no seu guarda-roupa tirando aquele casaco de couro que você usou naquela festa em que testemunhei sua felicidade mais sincera sorrindo para mim. Vesti uma camisa de flanela sua durante o dia e tropecei no fio daquele videogame que odeio, triste por não tê-lo quebrado e precisar pedir mil desculpas a você. Tirei um selfie ridículo que não vou mostrar a ninguém, mas que salvei para guardar para sempre. A Jussara me ligou e ela contou uma doença grave da irmã que me fez sentir forte em poder confortá-la. Alô? Sou eu de novo. Já está saindo? Aproveite e traga um parmesão ralado que acabou. Estarei te esperando. Coloquei um colar que você não vai notar e enquanto delineava os olhos lembrei de um tapa que levei no rosto quando adolescente de um amigo que declinei um pedido nojento e nunca contei a você. Boa noite, querido.
Boa noite, aqui está o vinho e o parmesão. Trouxe também essas azeitonas que estavam por um bom preço e quase trouxe um pote de sorvete de pistache mas sei que você não gosta de pistache e não queria comer sozinho, embora ainda assim minha vontade tenha sido tão categórica que não permitiu que trouxesse de outro sabor para nós dois. Meu dia foi bom e o seu? Lembra que comentei que esqueci o guarda-chuva e que não me molhei muito ao chegar ao trabalho? Na verdade prefiro ainda esconder que deixei de propósito aquele entrave e cheguei ensopado. Minhas previsões no anemômetro das folhas de uma copaíba falharam, subestimei a trajetória de uma cumulonimbus. Por um momento senti raiva em precisar de você, mas esse espaguete está ótimo, quer mais vinho? Aproveito que, enquanto fecha os olhos para levar a taça à boca, acompanho seu gole que desce pelo pescoço até esse colar de sementes trançadas, que nunca perguntei onde você comprou e por que escolheu isso, mas alimento alguma simbologia que nunca decifrarei e passo a querer você sempre. Quer ajuda na louça? Enquanto mergulho talheres na torneira da pia refaço com deleite uma humilhação bem formulada e enviada a todos contatos são-paulinos após uma derrota espetacular no jogo de ontem. Ajeito um fio desconectado do videogame e adentro numa floresta tropical atirando em milicianos, ouço você quebrar um copo e lanço múltiplas granadas de um M32 que explodem um reservatório de combustível. Cansado de morrer, vejo você deitada na cama, vestida na minha camisa de flanela, roendo unha e alheia à televisão ligada. Quer mais vinho? Achei que iria gostar mesmo desse corte, repito uma resenha sorteada do google sobre a altitude de Mendoza e você escolhe o dedo médio para roer. Posso ver os desenhos que você fez hoje? Estão muito bonitos, você desdenha sem dizer nada de meu comentário que não consegue ir além da minha capacidade em resumir qualquer coleção em duas estações do ano consecutivas e quando considero declarar derrota você me detém, me aceita e me recebe.
Nos encontramos.

 

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